Uma história de amor e morte

Faz hoje dois anos que um homem matou a sua mulher. Estavam casados há sessenta anos e amavam-se profundamente. Matou-a e matou-se sem nunca lhe ter dito uma palavra agreste na vida.

Uma história de amor e morte

Faz hoje dois anos que um homem matou a sua mulher. Estavam casados há sessenta anos e amavam-se profundamente. Matou-a e matou-se sem nunca lhe ter dito uma palavra agreste na vida.

1.

Já comecei a escrever esta história pelo menos três vezes.

Quando aconteceu, há precisamente dois anos.

E depois mais uma vez ou duas.

Travo e inicio, travo e volto a começar.

2.

É uma história triste.

De amor, mas mais triste do que deveria ser possível, uma história que não é justa e cuja moral não é clara.

Se estiverem crianças à tua beira, ao teu lado, desliga por um bocadinho – podes ouvir depois ou ler-me quando eles não estiverem perto ou já estiverem a dormir.

3.

Quero contar-te a história de Vital Marques e de Piedade do Patrocínio que foram casados mais de sessenta anos.

Uma história de amor muito bonita.

Vital guardava os jardins do Palácio de Queluz e Piedade vivia para ele, vivia para o instante em que ele voltava ao fim da tarde quase sempre com uma flor que lhe oferecia.

Gostavam de andar de mão dada, de ver as novelas e até de ir ao cinema ou a um restaurante chinês ao fim-de-semana. Era um segredo deles, adoravam os crepes e o chau-chau que Piedade tentava imitar em casa sem nunca ter conseguido que fosse tão soltinho como naquele chinês de Massamá.

Juntaram uns dinheiritos para a reforma.

Pensaram em fazer um cruzeiro e umas viagens para ver o mundo.

Pensamentos bonitos que os alimentaram numa velhice feliz e sempre apaixonada.

4.

Até que um dia, Piedade ficou doente.

Uma doença degenerativa…

Alzheimer.

Vital tratou de tudo.

Aprendeu a fazer em casa o que não sabia.

E voltou a oferecer-lhe flores quase todos os dias.

Quando ela desistiu de se levantar da cama, Vital preparava-lhe a caixinha dos remédios e as refeições, aconchegava-a numa conchinha que a tranquilizava.

A médica de família ficava encantada com eles.

Eram à prova de bala, um exemplo.

Piedade foi-se esquecendo de tudo.

E um dia, ao acordar, não o reconheceu.

Vital chorou muito.

Sabemos que chorou porque a carta que escreveu ainda estava molhada quando foi encontrada.

Escreveu-a na manhã em que o amor da sua vida não sabia quem ele era.

Faz hoje dois anos que a escreveu antes de matar Piedade e de se matar a seguir.

Por amor.

E contra o esquecimento.

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