O silêncio de Rui Costa sobre o atual momento do Benfica é cada vez mais inexplicável e cada vez mais ensurdecedor.
É verdade que os atuais líderes dos grandes clubes gostam muito de gerir as suas intervenções públicas através de aparições, mais ou menos controladas, mas, no caso do Presidente do Benfica, nem isso tem acontecido.
Com a casa literalmente a arder, talvez não fosse má ideia que Rui Costa dissesse qualquer coisa, desde logo, aos sócios que o elegeram, por larga maioria, há cerca de seis meses.
É verdade que não parece, tal o nível de desgaste que existe, mas os atuais órgãos sociais do Benfica foram eleitos em novembro e por uma maioria bem confortável.
O capital de confiança que Rui Costa tinha à saída dessas eleições foi completamente desbaratado em meio ano.
Basta percebermos o que aconteceu no final do jogo de segunda-feira, com o Sporting de Braga, com toda a gente a pedir a sua demissão.
Mas há mais problemas, o mais que certo terceiro lugar no campeonato e o consequente falhanço no apuramento para a Liga dos Campeões, da próxima temporada que apenas será confirmado oficialmente no sábado, deixa as finanças dos encarnados em apuros.
Há 16 anos que o Benfica não falhava uma presença na Liga dos Campeões, embora, na época de 2020/2021 não tenha chegado à fase de grupos.
Como sabemos, os valores que a UEFA paga pela presença na Liga Europa são menos de metade do que paga pela presença na Liga dos Campeões, o que vai obrigar a SAD a ter de apertar o cinto e a gerir, de forma mais rigorosa, a próxima época.
Esta questão é tão mais importante quando se sabe que depois de um investimento brutal – foram mais de 100 milhões de euros – realizado ao logo desta temporada, há jogadores que acabaram por desvalorizar, como os casos de Sudakov, Ivanovic e mesmo Enzo Barrenechea. Muitos vão ter de sair até para jogarem, para entrarem outros. Sem dinheiro extra será uma espécie de quadratura do círculo.
Por fim há ainda a questão José Mourinho. O treinador mostrou disponibilidade para renovar contrato em março. Daí para cá não se percebeu o que quis Rui Costa: se contava ou não com ele. Fez algumas declarações de fugida quando foi ao Parlamento, até que o jornal Record revelou, na edição de hoje, que afinal o Benfica fez, mesmo, uma proposta ao treinador e que aguarda pela sua resposta.
Tudo isto numa altura em que, de Madrid, chegam notícias, cada vez mais insistentes, que Mourinho é o preferido para voltar ao Real.
Para ajudar à confusão, a partir de domingo começa a contar o prazo que as duas partes para se separarem.
A ideia com que fico é que Rui Costa deixou de comandar os acontecimentos e passou a ser comandado por eles.
Depois de tudo isto, o mais certo é José Mourinho deixar o Benfica, a menos que algo de extraordinário aconteça, e que não é nada expectável.
Esta, como sabemos, não será a primeira vez, mas apenas a repetição de uma história que já aconteceu há quase 26 anos e ninguém parece ter aprendido nada com os erros cometidos no passado.
Sem a confiança dos sócios e dos adeptos, sem os dinheiros da Liga dos Campeões, com a necessidade de fazer uma remodelação, mais ou menos, profunda no plantel, a última coisa de que o Presidente do Benfica precisava era de ter de escolher um novo treinador para voltar a pôr o conta quilómetros a zeros e para o voltar a pôr o carro, outra vez, em andamento.
No entanto, parece que é o que vai acontecer.
Voltaremos a ter um novo recomeço do futebol do Benfica, não tenho é a certeza de que os resultados não sejam os mesmos.