A bailarina que ficou paraplégica no dia em que nasceu a Primavera

No primeiro dia da Primavera de 2014, uma bailarina ficou paraplégica. O que podia ter sido uma morte em vida transformou-se num ato revolucionário e artístico.

A bailarina que ficou paraplégica no dia em que nasceu a Primavera

No primeiro dia da Primavera de 2014, uma bailarina ficou paraplégica. O que podia ter sido uma morte em vida transformou-se num ato revolucionário e artístico.

1.

Era o primeiro dia da Primavera do ano de 2014, uma quinta-feira.

Antes do ensaio comentou-se o fim do Inverno, as promessas de um novo ciclo.

Em cima do palco estavam bailarinos e acrobatas – a Companhia Armazém 13 preparava um espetáculo que, como era hábito, misturava dança contemporânea e novo circo.

Diana era uma das bailarinas.

Tinha estudado na Finlândia e formara-se na Escola Superior de Dança.

2.

Estava num trapézio.

Deu uma cambalhota e tentou ficar presa com os pés numa corda.

Os pés perderam-se no ar e a queda foi inevitável.

Diana caiu com o pescoço no chão.

Ouviu um barulho que não lhe deixou dúvidas sobre o que acontecera.

3.

Tinha 29 anos e ficou paraplégica.

Durante muitos meses o corpo desligou-se.

Como se estivesse morto.

Depois foi melhorando.

Continua a melhorar, lentamente.

Passaram 11 anos e já come sozinha, consegue dar um ou dois passos, ir da cadeira para o sofá, mas fez bem mais do que isso – encontrou o caminho que a vida tinha para ela.

Tornou-se uma referência na sociedade e na cultura em Portugal, o exemplo máximo de uma artista que vive em função de uma ideia maior: provar que um corpo é um corpo, que um artista é um artista, que as pessoas com deficiência podem deixar uma marca, que devem ter as condições para a deixar.

4.

Diana é uma bailarina paraplégica.

Uma ativista, uma acrobata, uma escritora.

Continua a dançar.

A imaginar espetáculos.

A escrevê-los, a encená-los, a protagonizá-los.

Esteve há umas semanas na Culturgest, aplaudida de pé pelo que nos ofereceu, a utilização da sua vida, da sua imobilidade móvel, da sua capacidade de imaginar e de nos fazer imaginar.

5.

Peço-te para que não tenhas pena da Diana.

Não a lamentes.

Não a chores ou te atrevas a escrever comentários piedosos.

Não há nada que possas fazer que seja pior do que isso.

Porque ela não serve para inspirar pessoas ou comover o mundo.

Diana Niepce é uma bailarina.

Uma acrobata.

Uma coreógrafa.

Uma mulher inteira que desafia preconceitos e ideais de beleza.

Tem uma deficiência.

Nunca conseguirá andar.

Mas não é uma vítima, é uma revolucionária cuja razão de viver é o palco como verdade.

Como pergunta permanente.

Como ordem possível para a desordem do mundo.

Como atropelo das certezas, também das minhas e das tuas.

Diana, nascida em Ovar, mulher do mundo e dos palcos, artista em vários projetos aqui e fora daqui…

…com os Fura del Baus, por exemplo.

Com belgas, franceses, ingleses, gente fascinada com o potencial artístico de uma mulher que não anda e quase não se mexe…

…mexendo-se, dançando, rebentando com o que dávamos por adquirido.

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