Das ameaças de morte à perda de quem julgámos amigo

Dar opinião é um exercício diabólico. É preciso ter estômago para prosseguir. Todas as semanas, todos os dias, há quem não goste. E há quem ameace, insulte e pressione. Espantoso que haja tantos idiotas.

Das ameaças de morte à perda de quem julgámos amigo

Dar opinião é um exercício diabólico. É preciso ter estômago para prosseguir. Todas as semanas, todos os dias, há quem não goste. E há quem ameace, insulte e pressione. Espantoso que haja tantos idiotas.

1.

Escrevo sobre bola, política e religião.

Mas é um exercício difícil que me faz pensar se vale a pena ser enxovalhado, ameaçado, pressionado ou cancelado por dar uma opinião.

Vale a pena, claro.

Vale sempre a pena, mas é anormal a quantidade de gente para quem uma opinião que não vá ao encontro do que pensam é uma afronta que deveria ser paga com chibatadas no pelourinho mais próximo.

2.

Já me ameaçaram de morte.

Já me enviaram cartas anónimas.

Já me deixaram de mão estendida.

Há figuras da democracia para quem a liberdade de opinião só faz sentido quando eles próprios não são criticados.

Já perdi gente próxima à conta disso.

Gente que enche a boca com a ética republicana, mas que depois é tão ou mais totalitária do que os que juram combater.

3.

É cansativo, entediante e previsível.

Não posso elogiar o Benfica, o Sporting ou o Porto, sem ser atacado.

E na política a mesma coisa…

…se defendo o PS é por ser um “chuchas”.

Se elogio o PSD é por ser um vendido.

Se ataco o Chega é por estar com medo que se acabe o tacho.

Se critico o PCP há sempre quem recorde o grande homem que foi o meu pai e a vergonha que teria do filho se estivesse vivo.

Mas se, na semana seguinte, censurar o PS, as brigadas socialistas atacarão sem piedade.

Se reprovar a mediocridade de alguns ministros, dirão que têm provas de que sou um socialista avençado do Largo do Rato.

Se tentar entender o eleitorado que vota em André Ventura, receberei mensagens a perguntar-me se estou bem e se preciso de ajuda.

E se defender o PCP, a minha página inundar-se-á de comentários onde comuna será a única expressão publicável.

4.

Se digo que não entendo os que são do género fluido, sou ameaçado pelos progressistas.

Se digo que não entendo os católicos que defendem políticas racistas e amorais, sou ameaçado pelos conservadores.

Se digo que não concordo com a eutanásia, sou rebentado pela esquerda.

Se digo que não pode existir retrocesso na Interrupção Voluntária da Gravidez, sou rebentado pela direita.

Se digo que o governo israelita é composto por assassinos de guerra, sou antissemita.

Só este ano, já fui.

Seboso e careca.

Vendido e verme.

Esquerdalho e direitola.

Maçon e Opus-Dei.

Lampião, lagarto e tripeiro.

Maricas e homofóbico.

Filho da que tu sabes, muitas vezes.

E atenção.

Eu não me posso queixar.

Sou um privilegiado.

Todos os dias sou muito mais bem tratado do que o contrário.

Mas deixem-me respirar fundo.

(Respirar fundo)

Seria tão mais fácil se respeitássemos as opiniões uns dos outros.

Sobretudo quando a opinião não vai ao encontro do que achamos ser a verdade – é aí, só aí, que podemos acrescentar ao que já sabemos.

Se ouvirmos apenas o que já pensamos, ficamos do tamanho do nosso umbigo.

Pequeninos.

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