Deus ganhou ao Diabo na esquadra da Brandoa

Na esquadra da Brandoa, num dos lugares mais difíceis do país, um homem negro entrou desesperado com uma bebé quase morta nos braços. Os polícias salvaram-na.

Deus ganhou ao Diabo na esquadra da Brandoa

Na esquadra da Brandoa, num dos lugares mais difíceis do país, um homem negro entrou desesperado com uma bebé quase morta nos braços. Os polícias salvaram-na.

1.

Estava muito frio, eram horas do telejornal e os polícias de plantão na esquadra da Brandoa, na Amadora, faziam contas ao Natal e à vida.

A esquadra estava vazia de gente que não fosse polícia, um princípio de noite calmo num lugar difícil.

Um lugar rodeado de bairros sociais, pobreza e exclusão.

Na Amadora, em todas as freguesias da Amadora, quando há notícias sobre polícias não é de polícias que se fala, mas de bófias, de tiras, de pardais, de canalhas fardados, de racistas.

2.

Na Brandoa ou em Alfornelos há bairros atrás de bairros, a maioria gente de trabalho, mas também indigentes, traficantes e ladrões.

Os bairros sociais não são muito diferentes dos de ricos – uns e outros são excelentes amostras da condição humana, do que somos perante o que não conhecemos, perante o que tememos e perante a esperança que é a mais bela e feroz das tentações humanas.

Na Brandoa, da última vez que lá fui, havia jardins e miúdos felizes em escorregas iguais aos dos meninos de bibe que tratam os pais por você.

3.

Volto então ao princípio da noite de dezembro, noite de breu e frio numa esquadra com homens fardados e na expetativa de poderem ir para casa comer a última fatia de bolo-rei.

Amplificado pelo silêncio da rua, ouviu-se um homem a gritar.

Não era bem um grito, era mais um pedido de socorro das entranhas.

O homem entrou na esquadra e era negro.

Trazia uma bebé ao colo, uma menina com a cara e o corpo azulados.

Parecia morta, asfixiada.

Estava em paragem cardiorrespiratória.

O homem chorava desesperado, os polícias eram o seu último recurso, não imaginou mais nada que pudesse ser feito, entrou assim no último lugar em que imaginaria poder entrar.

4.

Um polícia agarrou na bebé de nove meses e começou, com a ajuda de um colega, a tentar desobstruir a via aérea de um objeto que a criança engolira quando brincava.

Conseguiram fazê-lo.

A bebé recomeçou a respirar.

Primeiro sofregamente, depois como antes.

O pai não sabia o que fazer, se agradecer, se chorar mais, se agarrar a sua menina e beijá-la.

A criança foi levada pelos polícias para o Santa Maria onde a menina se restabeleceu por completo.

5.

Não será necessário gastar tempo com a moral da história.

Digo-te apenas que acredito na bondade humana.

Como acredito que a violência e o mal também são fortes detonadores do movimento do mundo e de nós no mundo.

O mal e o bem.

A grandeza e a miséria.

6.

Talvez seja a primeira vez que não dou nomes à história.

Por desejar que sejam a prova de que podemos confiar que nada é linear.

Que há polícias maravilhosos…

Que precisamos de polícias que o sejam e que possam ser respeitados no seu trabalho.

Sempre que há histórias de esquadras é para falar do Diabo.

Mas todos os dias nas esquadras o Diabo tem as suas derrotas.

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