Os invisíveis

No mundo do jornalismo televisivo há quem se mantenha invisível. Não nos lembramos dos seus nomes, mas são essenciais, guardam a essência da profissão e a sua coragem é lendária.

Os invisíveis

No mundo do jornalismo televisivo há quem se mantenha invisível. Não nos lembramos dos seus nomes, mas são essenciais, guardam a essência da profissão e a sua coragem é lendária.

1.

Vivi várias vidas.

Tu também, certamente que tu também.

Tive vários sonhos, várias quedas, várias vitórias, vários tropeços que se transformaram em triunfos e o seu contrário.

Fiz televisão.

Documentários.

Conheci muita gente, conheço hoje menos do que antes.

2.

Fui jornalista com carteira profissional vários anos.

Dirigi jornais e estações de rádio.

No entanto, num percurso de mais de trinta anos, nunca escrevi sobre os que, no jornalismo televisivo, carregam a invisibilidade e o esquecimento sendo, paradoxalmente, os mais bem preparados no terreno.

Sem eles, e elas também, não há jornalismo televisivo de qualidade.

Ou imagem, enquadramento ou possibilidade de entrar nos sítios proibidos.

3.

Os repórteres de imagem quando são gigantes, são mesmo gigantes.

Quando são bons fazem brilhar os que dão a cara.

Em alguns casos até fazem brilhar quem não tem assim tanta qualidade.

Quando têm coragem, são mesmo corajosos.

Nos cenários de guerra carregam a câmara e tornam-se o alvo prioritário e visível.

São eles que enfrentam as fúrias populares.

São eles quem nos enquadra o olhar e o entendimento.

São eles que orientam os jornalistas menos experientes. E às vezes os mais experientes também.

4.

Há muitos anos, quando fazia televisão, recebi vários elogios injustificados.

Rui Pereira, há muitos anos repórter de imagem da TVI, e tantos outros, como o fantástico Miguel Manso, ofereceram-me tudo o que eu precisava sem saber que precisava.

Deram-me a papinha já feita.

Permitiram-me voar quando não sabia que podia bater as asas sem as ter.

E fizeram-no generosamente.

Sem pedir nada em troca.

5.

Como aliás a generalidade destes enormes profissionais que insistem em remar contra o tempo e a ideia de que só os que aparecem, têm likes, dão entrevistas ou recebem prémios, são importantes.

Não conhecemos os seus nomes, não nos vêm logo à cabeça, mas são dos melhores jornalistas que temos.

Os últimos moicanos da velha escola.

Eles, e também elas, não fazem questão que conheças o seu nome, mas ajuda se, da próxima vez que vires uma reportagem ou documentário que te impressione, lembrares-te que atrás de cada uma das imagens está alguém que definiu o que vês em cada plano.

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