1.
É a mais poderosa e internacional das vozes portuguesas, mas também um exemplo do modo como, por vezes, tratamos os nossos melhores.
Dulce Pontes é sublime.
Quando a sua voz se abre o mundo fica em suspenso.
Só que…
…só que é demasiado diferente…
…quase não dá entrevistas, nunca aparece em festas ou se deixa fotografar, publicita-se pouco, vive no silêncio que, neste tempo, se confunde com o mais hediondo dos sepulcros.
2.
Colaborou com Ennio Morricone, cantou com José Carreras ou Andrea Bocelli, foi acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Londres, mas há pretensiosos de berço que a consideram pirosa.
Um bocadinho como Joana Vasconcelos que alguma elite lisboeta define como comercial.
3.
Dulce é uma paixão de Caetano Veloso.
Cesária Évora considerava-a divina.
E Marisa Monte comoveu-se quando com ela partilhou o palco, só que Dulce é um bicho do mato.
Não diz que está viva.
Não grita por atenção.
Isola-se no seu buraco de paz de onde apenas sai para espetáculos, ensaios ou gravações longe das vistas.
4.
Não pertence a capelas e capelinhas.
Nasceu no Montijo e é da terra, continua a sê-lo sem complexos. Foi por isso que se trancou numa pequena aldeia de Bragança,
com animais e sem poluição, amigos ocasionais ou berloques que a pudessem desviar.
Há um tempo chegaram a ser publicados textos que questionavam que ainda existisse – como se fosse impossível alguém viver sem precisar de aparecer nos lugares do sucesso.
Tem dois filhos, ao que sei.
É simpática, juram-me.
Mas se não fosse, seria indiferente.
Dulce Ponte é um espanto.
Única, avassaladora e resistente ao que o tempo pede.
A minha admiração.
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