1.
Afonso Reis Cabral não é apenas o talentoso bisneto de Eça de Queirós.
Não desvalorizo o talento e o sangue, mas Afonso soube encontrar um caminho próprio feito de uma simplicidade que quase nos embaraça.
Num meio difícil, inflacionado de egos e primas-donas, soube desarmar com uma simpatia que, como já escrevi algures, transformou-se hoje num ato revolucionário.
2.
Trata bem toda a gente.
Sorri até prova em contrário.
E trabalha muito, escreve, pensa, arrisca, não dá como adquirido.
Nasceu menino bem e com a maldição de gostar de escrever…
…que terrível missão a de ter de carregar o peso de uma herança que o poderia sufocar.
Afonso não usou Eça de Queirós no seu nome de combate, deixou-o de lado.
E procurou o seu próprio caminho – arranjou trabalhos nas férias, chegou a trabalhar numa vacaria onde, diligentemente, limpou estrume e aprendeu a sujar as mãos na ordenha.
3.
Em Afonso Reis Cabral nada parece ser por acaso.
Procurou muito cedo perceber como o mundo funcionava fora dos palácios.
Não poderia começar a escrever sem conhecer as estrebarias e os vencidos. Sem sentir que fazia parte da vida, única forma de poder depois contar as estórias, de as escrever, de ser útil.
É um escritor, um dos melhores e mais originais em Portugal.
Escrevi a palavra útil por o sentir nos seus livros – há um sentido de utilidade nos romances, nos homens e mulheres que nos quis apresentar.
4.
Uma utilidade e um conflito.
Contra a indignidade de existir gente que se acha superior, que trata mal quem escapa ao entendimento.
Os seus livros são isso, mas também um apelo à empatia e esperança, sem recear o melodrama, as emoções, os sentimentos.
Gisberta tornou-se real nas páginas de Pão de Açúcar.
Preferiu contar a história da nossa Estrada Nacional 2 numa provocação a quem sempre preferiu a Road 66.
Escreveu “O Meu Irmão” inspirado em Martim, o seu mais velho nascido com Síndrome de Down – tinha vinte e poucos anos quando editou este romance inicial e era pouco ou nada óbvio que começasse pelas próprias entranhas.
E por fim deixou-nos a pensar com o seu “Último Avô”. A matutar sobre nós, sobre a nossa história, fantasmas, portas que
receamos abrir – a guerra colonial, o que as famílias escondem, a dialética entre a ficção e a realidade, talvez a sua história, o tal peso que carrega, o nome do seu próprio avô.
Hoje era isto.
Abraçar quem gosta de abraçar.
Um dos mais talentosos escritores portugueses.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.