1.
A primeira vez que dele ouvi falar foi há muito tempo…
…talvez tenham passado quase 30 anos e foi a minha colega Sónia Morais Santos que o entrevistou no DNA quando pouco gente o conhecia.
Era psicólogo em Coimbra e lançara um livro sobre o que pensam os bebés quando estão na barriga da mãe ou então era um outro tema relacionado com a psicologia infantil, não tenho a certeza.
Depois de Daniel Sampaio, quando inventou novos pais e revolucionou a psiquiatria para adolescentes, aparecia em força um psicólogo a escrever livros que ajudavam os pais a ser melhores.
2.
Eduardo Sá é uma das pessoas com mais sucesso em Portugal.
É seguido por milhares e milhares de pessoas, o seu consultório é um dos mais requisitados e as suas entrevistas comentadas e partilhadas.
Defende a imperfeição como condição de que não podemos fugir – um magnífico ponto de partida que suaviza a pressão de precisarmos de ser isto ou aquilo para sermos bons pais, bons avós, boas pessoas.
Ouvir Eduardo é um exercício de yoga, um tranquilizante para o peso suportado, por tantos de nós, do instante em que acordamos até ao segundo em que adormecemos.
3.
Eduardo Sá teve um acidente na sua casa de sonho.
Nunca aldeia perto de Aveiro, rodeado de árvores, pássaros e silêncio, caiu desamparado e fraturou a coluna.
De um segundo para o outro, a vida condenou-o a uma cadeira de rodas.
Condenou-o a nunca mais poder andar.
4.
Vi-o no Porto, o ano passado, numa das primeiras conferências em que apareceu após a tragédia.
Estava visivelmente em baixo e pediu para que ninguém lhe tocasse na cadeira, apenas a mulher o poderia transportar.
Soube depois que estava traumatizado pela maneira como o tinham levado na ambulância de casa para o hospital.
5.
Pensei em aproximar-me, mas não o fiz. O que se pode dizer nestas circunstâncias?
Passaram uns meses largos e o tempo faz o que é suposto.
Eduardo Sá voltou a escrever.
Voltou a ensinar.
Voltou a falar em programas de rádio.
Voltou aos debates e colóquios.
Voltou a pensar alto connosco acerca do futuro, do que em nós é futuro, nesta coisa prodigiosa de ser pai e de ser filho.
Eduardo tem seis.
Nenhum pai de seis pode sê-lo se não for otimista ou louco.
Ou as duas coisas.
Ele é um otimista.
E precisamos que continue a sê-lo.
Que continue a ser o psicólogo que não tem medo de mergulhar em palavras que parecem gastas do mau uso, a palavra Amor.
A palavra Paixão.
A palavra Afeto.
A palavra Superação.
Palavras que baralhou e voltou a dar nos dias em que tudo pareceu ruir.
Palavras que foram as suas mais poderosas aliadas nos dias em que construiu os alicerces de uma nova vida.
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