Frei Hermano da Câmara fechou-se num convento há 70 anos

Bonito, rico e brasonado. Tetraneto de um rei e com vários amores e amante de boémia. Aos 27 anos deixou a vida que conhecia para ser monge. Tem hoje 91 anos e marcou um tempo.

Frei Hermano da Câmara fechou-se num convento há 70 anos

Bonito, rico e brasonado. Tetraneto de um rei e com vários amores e amante de boémia. Aos 27 anos deixou a vida que conhecia para ser monge. Tem hoje 91 anos e marcou um tempo.

1.

Frequentava casas de fado no Estoril e nos bairros antigos de Lisboa.

Era extraordinariamente bonito, muita gente se apaixonava quando passava e, ainda mais, quando abria a boca para cantar.

Vinha da nobreza e dos brasões.

Não gostava de tocar no assunto, tentava ser o mais discreto, mas quando os amigos endinheirados e bem-nascidos se juntavam nas madrugadas com a ralé, lá se contava que o rapaz era tetraneto do Rei Dom João VI, o Clemente, o que levou as cortes para o Brasil para escapar às invasões de Napoleão.

2.

Bonito.

Rico.

Brasonado.

Com amores e uma voz que parava o trânsito da noite.

Mas nenhum dos fatores foi suficiente para travar a vontade de mudar de vida, de abandonar tudo, de se fechar num convento.

Cantou o “Fado da Despedida” e contou aos pais da sua decisão um mês antes de se fechar num Convento Beneditino.

Tinha 27 anos.

3.

Chegaram a ser escritas reportagens a jurar que abandonara tudo por se ter apaixonado por quem não retribuía a paixão.

Verdade ou não cumpriu mesmo o que os amigos nunca imaginavam que pudesse cumprir – afinal, como é que um notívago amante da boa vida poderia renunciar assim ao prazer?

Frei Hermano da Câmara é o homem de que te conto.

Tem 91 anos, deixou de cantar há dez e vive numa residência de uma pequena ordem que fundou em 1987, depois de sair de Singeverga…

…os Arautos da Misericórdia Divina, assim foi batizado um movimento a que começou por chamar Apóstolos de Santa Maria.

São monges que rezam, contemplam e visitam paróquias e lares levando Deus através da música.

4.

Frei Hermano decidiu fechar-se num convento há quase 70 anos.

E, apesar de ter deixado os fados de faca e alguidar, das touradas e amores proibidos…

…continuou a cantar.

Sobre Jesus, sobre Nossa Senhora, sobre Deus e a bondade.

Talvez não saibas do que estou a falar quando te digo deste frade.

Do sucesso que teve, dos muitos milhares de discos que vendeu, dos espetáculos esgotados, do quase histerismo que provocava, da importância que teve para a Igreja portuguesa logo após o 25 de Abril.

5.

Com Frei Hermano a Igreja provava que cantava e dançava, que não era conservadora como os revolucionários diziam que era.

Certamente que ainda canta, mas não para nós.

Entrou num silêncio antes do silêncio.

Não sei se guarda fotografias antigas, o som dos aplausos e a memória dos poemas que cantou, sei que continua bonito e sem arrependimentos.

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