1.
Glória de Matos irritava-se com a falta de noção das pessoas.
Não percebia aliás a razão para que tão poucas a exaltassem como figura verdadeiramente marcante.
Sabia que tinha uma imagem distante, que afastava as pessoas sem as desejar afastar, o que era injusto para elas e para si.
Não tinha culpa de ter um olhar esfíngico, de não sorrir para o vazio só para parecer simpática… tinha pouco vagar e criticava os que viviam a pensar na imagem e na popularidade.
2.
Não deixa de ser interessante pois casou com a figura que era o símbolo da imagem, do galã, da estrela que foi a maior de todas as estrelas da televisão portuguesa durante o Estado Novo.
Henrique Mendes era isso.
Bonito de morrer.
As mulheres gritavam à sua passagem como se fosse um Beatle em digressão pelos liceus do mundo.
Glória de Matos, sendo uma mulher vistosa, conseguiu o impensável: destronar a maravilhosa Simone de Oliveira do coração de Henrique.
Casaram em 1969, meses após o fim da relação conturbada com a cantora – precisamente no ano da “Desfolhada”.
3.
Glória de Matos não compreendia a condenação a uma espécie de segunda linha entre as atrizes portuguesas.
Ela que dizia como ninguém.
Que representava nos palcos, na televisão e no cinema.
Que era versátil e muito considerada entre os melhores encenadores e realizadores – Manoel de Oliveira considerava-a muito, por isso a convidou para sete dos seus filmes.
Glória não era somente uma atriz.
Tinha muitos mundos, não apenas o da representação.
Dava formação a atores, ensinava-os a colocar a voz.
E interessava-se pela política, interessava-se e participava.
4.
Cavaco Silva deve-lhe alguma coisa pois foi ela quem o ajudou a expressar-se melhor, a colocar a voz de maneira a que fosse compreendido pelos portugueses.
Os próximos de Cavaco confirmam que há um antes e um depois de Glória de Matos na vida do ex-primeiro-ministro e ex-Presidente.
5.
Glória de Matos morreu com 89 anos.
Morreu sem que as perguntas que fazia fossem respondidas.
Morreu sem conseguir domesticar a sua frieza, um distanciamento que talvez não fosse real, que talvez não expressasse a sua vontade.
Morreu também com grandes dificuldades para se expressar. A cabeça funcionava, mas as palavras deixaram de lhe sair como antes, uma ironia de que a vida é pródiga.
Infelizmente, não a conheci.
Ter-lhe-ia perguntado sobre tudo isto.
Sobre ser atriz e professora.
Sobre a sua proximidade distante.
Sobre a falta de reconhecimento em relação a tantas coisas que fez.
Sobre a dificuldade e dizer as palavras quando a sua vida foi feita a dizê-las melhor do que ninguém.
Sobre a vida, lá está.
Ter-lhe-ia perguntado sobre a vida.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.