1.
Comi uma Posta Mirandesa nas terras transmontanas de Lombada, lugar mítico onde foi assinado o acordo eterno de proteção entre portugueses e ingleses.
Em Babe ou Babe, se pronunciar como os ingleses, celebrou-se em 1387, a união eterna entre coroas.
Devia estar um frio que matava, apesar de já ser março. O próprio Duque de Lencastre se queixou que as mãos lhe tremiam dos vapores do nevoeiro de Trás-os-Montes.
Aqui para nós, não lembra ao diabo que as tropas se tenham aquartelado na aldeia de Babe, lugar de Lombada, no alto de Portugal.
Não lembra, mas foi assim que aconteceu e não creio que já estivesse aberto o restaurante onde me receberam com um naco de carne que ainda hoje me faz suspirar…
…coisas de velhos.
2.
Não é por isso que te raptei para viajares comigo para Lombada.
É por outra coisa, uma curiosidade que não faço ideia se é verdadeira, embora confie no que me juraram.
Que as mulheres de Lombada são as maiores de Portugal.
Tão altas como os homens e que não há terra nenhuma onde se possa comparar a magnitude do que por ali se vê.
3.
O dono do restaurante Lombada tinha uma explicação que me vendeu como se fosse a certa:
– Não se esqueça de que os acordos há mil anos de faziam com a força da tinta, mas também com o amor. Os ingleses e as mulheres da Lombada cruzaram-se nesse período e a coisa começou a dar-se.
A força e o amor, dizia o simpático estalajadeiro.
Palavras que parecem fazer sentido, mas que chocam uma com a outra, “força” e “amor”.
4.
Mulheres gigantes, conta a lenda da Lombada.
A terra das mulheres grandes.
Onde conheci o Elias que servia à mesa no restaurante e jogava a ponta-de-lança no Argozelo, nos confins de Trás-os-Montes.
Desconhecia que as mulheres eram maiores ali do que nos outros lados de Portugal. Chegara há poucos meses, tinha vinte e três anos e uma convicção absoluta:
– Não duvide do que lhe vou dizer. Um dia vou jogar no Benfica. Fixe o meu nome, chamo-me Elias, nasci na terra de Água Grande, em Bissau, e a minha estória vai ser bonita.
Os homens à volta gozaram o prato.
Acorda para a vida, miúdo, já tens vinte e tal anos.
Vá lá, Elias, não me lixes, não te estragues com sonhos.
Vai mas é à mesa 43 e concentra-te nas gorjetas.
5.
No final, antes de sair, dei-lhe um abraço e fiz uma coisa errada…
…disse-lhe que sim.
Que um dia, quando fosse muito conhecido, quando fosse goleador no Benfica, não se esquecesse de mim quando eu lhe pedir uma entrevista.
Elias, sorriu como um menino.
E ficámos assim.
Combinados para sempre.
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