1.
Estou em choque.
Ontem, num almoço com amigos, insistiram para que provasse a única coisa que abomino.
Digo-o há décadas.
Que só o cheiro me agonia, que o prato deveria ser proibido por decreto-lei ou Bula Papal, que me incomoda só de ver.
Iscas.
Sobretudo com elas.
Detestáveis.
2.
Mas…
…mas comi-as e gostei.
Mais: comia-as e comeria mais se houvesse.
No final do almoço, um sacaninha disse-me assim. “Luís, é normal. O paladar muda com o envelhecimento, a tendência é para gostar de tudo”.
Estou a envelhecer, uma boa notícia.
Mas adorar iscas?
3.
Ter tanto prazer com elas como teria com um bacalhau de posta alta à Lagareiro?
Ou com a volúpia de um cabrito assado de Monção?
Ou com um bife malpassado num lugar de boas carnes?
Já para não falar dos dias em que me envolvo com pataniscas, peixinhos da horta, tripas e cozido, sardinhas e linguado, carapaus de escabeche e carne de porco à alentejana, sopa da pedra e caldo verde ou sopa de peixe, choco frito de Setúbal ou língua de vitela da Beira-Alta, ensopado de enguias de Santarém, cataplana algarvia, alcatra açoriana, espetada em pau de loureiro da Madeira, leitão na Bairrada, vitela de Lafões, arroz de lebre da Guarda, pudim Abade de Priscos.
4.
Tantas aventuras.
Tanto prazer.
Mas iscas?
Fígado de porco?
Fritas em banha ou lá o que é?
Mais as batatas que molhamos naquilo tudo?
5.
Devo aproveitar para rever amigos com quem não falo?
Que deixei de provar por não me saberem bem?
Ouvir quem não suporto?
Passará a ser música para os meus ouvidos?
Fico a pensar.
E tu, se estás como eu…
…a envelhecer…
…prova por estes dias o que não gostas.
O que detestas, abominas, odeias…
Quem sabe?
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.