1.
É difícil encontrar uma pulhice maior do que aquela que foi feita a João Lagos.
A história é conhecida, passou já um ano, mas o “Postal do Dia” nunca é a partir da atualidade pura e dura, regra geral espero o tempo que for preciso para deixar que a passagem dos ventos permita o distanciamento.
2.
João é um dos grandes empreendedores da história do desporto português.
E o primeiro nome do ténis português.
Não é possível pensar em nenhum momento importante do ténis sem chocar de frente com o seu talento para fazer as coisas acontecer.
Em 1982, numa época de puro amadorismo, trouxe Bjorn Borg ao Estoril e a Famalicão – o que mobilizou o interesse e entusiasmo de centenas de miúdos.
Fundou o Estoril Open e integrou-o no circuito ATP, o que alguns consideravam uma pura extravagância, uma megalomania.
E convenceu o Estado a abrir a prática de Ténis em escolas públicas como forma de combater o estigma de ser um desporto para ricos, uma herança do fascismo e dos privilegiados…
…Lagos tinha uma ideia diferente, acreditava (e bem) que o Ténis só poderia ter um boom se se democratizasse, o que ainda não aconteceu na totalidade.
3.
É uma vida única a do João.
Um sonhador pragmático – foi ele também quem trouxe o Rali Paris-Dakar para a Europa, quem imaginaria que a mítica prova pudesse um dia partir de Lisboa?
Um lutador que aos 18 anos partiu à aventura sem dinheiro no bolso. Viajou para Londres com a ideia de aprender a jogar como um gigante, pagou aulas com o dinheiro que ganhava a servir copos, a lavar carros e a tirar fotografias como modelo.
Foi campeão nacional, caiu, levantou-se, teve dois filhos e viu o seu mais novo adoecer, o Tomás que, aos 41 anos, em 2023, morreu com um cancro.
O Tomás a quem o pai João tentou salvar com um projeto a dois, o desenvolvimento do Padel em Portugal.
Não foi suficiente.
A tragédia, por vezes, é mais forte do que o amor.
4.
Chego à pulhice.
Humana.
Infelizmente previsível.
Indecorosa.
Pornográfica.
Há um ano, em março de 2025, a Federação Portuguesa de Ténis fez 100 anos.
João Lagos criticara a gestão do seu presidente que, em represália, não o convidou para o jantar comemorativo da celebração do centenário.
Ele, João Lagos, incontestavelmente a maior figura do ténis português, ficou à porta.
Vedado por um presidente cujo nome não será lembrado por ninguém.
Vasco Costa.
Chama-se assim o homem que não convidou João Lagos por despeito, fraqueza e pura maldade.
Menos de dois anos depois de um pai ter perdido um filho… nem isso o amaciou.
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