1.
Será possível convencer José Barata Moura a um último espetáculo?
Sei que é difícil, ele não é nada fácil de convencer, mas como podemos dizer aos nossos filhos que existe mesmo um homem assim, um sábio de barbas, olhos bondosos e inventor de canções?
Não iguais às outras, mas capazes de influenciar a forma como tantos de nós passaram a escutar os ruídos do mundo.
Como explicar aos nossos filhos e netos que aquela voz, que aquelas músicas, que toda aquela bicharada, que o rei com uma grande barriguinha e que a Joana… que todas as meninas e meninos que não comem a papa… existem mesmo na voz de uma pessoa de carne osso?
2.
José Barata Moura tem hoje 77 anos.
É um dos mais respeitados intelectuais portugueses.
Um poço sem fundo de conhecimento, como me disse há poucas semanas, António Sampaio da Nóvoa.
Foi mítico Reitor da Universidade de Lisboa, é um filósofo que procurou entender o futuro e descobrir as chaves para que não existissem exploradores e explorados, para que a utopia fosse realidade.
É um derrotado da história.
Sendo um vencedor.
3.
Desapareceu de cena quando quis desaparecer de cena.
Raramente surge em algum lado.
Prefere o silêncio e uma solidão que cultiva com os que ama, com os amigos, a família.
Um círculo fechado que o protege da imbecilidade de um mundo que nunca imaginou ser possível.
4.
Não sei se pega na viola quando está sozinho.
Adoraria saber se tem composições inéditas, novas canções que pudessem ser novos hinos para novas crianças que desenhassem novos futuros.
Também não sei se José Barata Moura desvaloriza este seu lado de cantor, de encantador de crianças.
Mas se o faz está errado.
Porque foi um construtor de futuro.
Um dos mais eficazes.
Marcou-me como poucos.
E a tantos como eu.
Ensinou-me a ser um observador, a estar de olhos abertos, a partilhar canções em forma de ideias, projetos, partilhas.
Moldou-me o gosto, tratou-me em criança como um futuro adulto, alguém que valia a pena regar para que crescesse uma flor e não um machado, uma esperança e não um ressentimento.
Gostava tanto de levar os meus filhos pequenos, e os outros também, a um lugar onde pudéssemos aplaudi-lo e agradecer.
Podemos ter esperança?
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