1.
Margarida Carpinteiro é uma das minhas atrizes preferidas.
Fez muitos papéis, várias personagens, trágicas e cómicas, no palco, no cinema e na televisão, no Parque Mayer ou na Cornucópia.
Fez dezenas de mulheres, respondeu por muitos nomes, mas não consigo desligar-me de Mariette.
2.
Estou a falar-te sem ter a certeza se a conheces, se sabes o que te estou a dizer.
Lembras-te de Mariette?
Do que ela nos fez?
Das discussões no país à volta daquela história de amor com João Gudunha, interpretado pelo gigante Nicolau Breyner?
Discussões entre mulheres e entre homens que, nas tascas de vinho barato e chão de serradura, discutiam Vila Faia como se o assunto fosse bola e não uma novela.
3.
Margarida Carpinteiro revolveu-nos as entranhas e a humanidade.
Dou comigo a pensar que precisamos urgentemente que alguém nos faça isso agora, precisamos de uma outra Mariette para resgatar a falta de empatia de tantos e de tantas.
Uma atriz incrível e poderosa.
Aquele papel de prostituta, uma mulher pura, boa, sem mácula e que a vida premiou com um amor impossível, mas que logo lhe impediu a redenção condenando-a a uma morte certa – como se os pobres jamais pudessem aspirar à felicidade.
4.
Margarida está viva.
Retirou-se para a aldeia onde nasceram os pais.
Em Vales, freguesia de Cardigos, numa Beira Baixa longe de tudo, mas perto do que considera essencial, isolou-se com os seus animais e fantasmas.
O ano passado viu Amílcar, com quem partilhou a vida durante mais de meio século…
…viu-o morrer com um cancro.
Tinham-se conhecido ali, em Vales, ainda sem a praia fluvial, mas com o cheiro de resina e da natureza mais as raposas e uma juventude de que eram credores.
Amílcar, um bocadinho mais velho e Margarida cheia de vontade de fazer coisas, mas sem saber se poderia um dia ser atriz.
Foram para Lisboa, casaram.
Até que viu um panfleto no meio da rua.
Um panfleto colocado por um anjo enviado por um Deus maior, um curso de iniciação teatral no Instituto Italiano.
O resto é história.
A história de uma das minhas artistas preferidas:
Margarida Carpinteiro.
Que hoje, a esta hora, está à porta de casa a despedir-se do Sol.
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