Talvez não tenha sido nada má ideia este empate.
Os jogadores da República Democrática do Congo despejaram um camião de gelo sobre a euforia nacional e nada como recolocar os pés na terra depois de uma passagem por Marte.
Como alguém já disse um dia: “Houston we have a problema”.
Não será a Apolo 13 que se viu e desejou para regressar à terra no dia 14 de abril de 1970, mas esta equipa treinada por Roberto Martinez não teve um, mas vários problemas.
Antes disso, é importante dizer que todos os objetivos de Portugal para este campeonato do mundo estão mais do que intactos.
Lembro que no Euro 2016 que acabamos por ganhar, empatamos os três primeiros jogos da fase grupos, o que até nem foi nada mau porque passamos para o lado mais acessível da chave, no qual evitamos os adversários mais complicados no caminho até ao jogo decisivo.
Também no Euro 2004 que organizamos, começamos com uma derrota frente à Grécia e não foi por isso que não chegamos à final que depois acabaríamos por perder, mas isso é mesmo outra conversa.
Aliás vale a pena pegar neste exemplo de 2004 para recordar que o teimoso Luís Filipe Scolari, nesse jogo de estreia, contra todas as opiniões de comentadores e não só, decidiu apostar numa equipa que deixou de fora alguns dos jogadores que duas semanas antes tinham ajudado o FC Porto a sagrar-se campeão europeu.
Lembro-me bem da polémica que foi a não titularidade do híper criativo Deco em detrimento de Rui Costa.
As páginas que se escreveram a pedir que Ricardo Carvalho, Nuno Valente e Miguel jogassem nos lugares de Fernando Couto, Paulo Ferreira e Rui Jorge.
Ao segundo jogo, frente à Rússia, o Sargentão soube perceber que era melhor dar ouvidos a essas sugestões e as coisas mudaram para melhor.
Com esses nomes a seleção nacional fez-nos sonhar e chegou à final de Lisboa.
De regresso a este mundial das Américas, era ótimo que o técnico espanhol percebesse que há equívocos que terão de ser resolvidos já a partir de terça-feira.
Faz sentido obrigar, nesta fase da sua carreira, Bernardo Silva a jogar descaído sobre a ala direita quando tem outras opções melhores para lá colocar?
Faz sentido não o meter na faixa central onde pode ajudar a pensar o jogo?
Faz sentido deixar no banco jogadores como Trincão ou João Félix que, no um contra um e em triangulações rápidas, podem ajudar a desbloquear defesas fechadas como aconteceu ontem?
Faz sentido passar grande parte do segundo tempo a cruzar bolas para três centrais altos e espadaúdos do adversário que, de frente, lhes chamam um figo?
Por fim, faz sentido esta insistência já um pouco absurda na titularidade de Cristiano Ronaldo que pelo que fez nestes últimos três jogos – Chile, Nigéria e Congo, para não recuarmos mais no tempo, já não é uma mais-valia, bem pelo contrário?
Desde o mundial do Qatar fez 33 remates e marcou zero golos!
O jornal inglês Independent dizia ontem que Portugal jogou com 10 jogadores e uma estátua no que acaba por ser uma bela imagem do que se passou em Houston.
A bola nunca chegou ao nosso ataque e Ronaldo nunca se mexeu o suficiente para que outros jogadores pudessem lá chegar.
Senhor Martinez, Portugal tem um enorme problema se insistir na mesma solução e esperar resultados diferentes.
Seja criativo e siga o exemplo de Scolari em 2004 porque, tal como ele, também tem soluções de enorme qualidade para dar e vender. Basta olhar para os jogadores que estão sentados ao seu lado.
Vai muito a tempo de fazer o que ainda não foi feito!
Por favor, não desperdice esta oportunidade que para nós, portugueses, pode não se voltar a repetir tão cedo.