1.
Parecemos adolescentes envelhecidos.
Não por culpa nossa, mas do tempo.
Isto anda tão rápido, as mudanças são tão expressivas, que é difícil não nos sentirmos como quando éramos miúdos e o mundo se esparramava para que o pudéssemos decifrar.
Hoje há carros que andam sozinhos e robots que amam.
Há países onde o dinheiro já não existe em papel.
Há fábricas que produzem computadores que um dia estarão alojados num corpo que deixará de ser completamente nosso.
2.
Quando achávamos que todo este progresso produziria gente empenhada, livre e esfomeada de futuro, o que constatamos é o contrário…
…estamos mais conservadores
Menos imaginativos.
Mais intolerantes.
Menos empáticos.
E mais controladores
É uma bizarria, um verdadeiro embuste.
3.
Depois, mais esdrúxulo ainda, é constatar que os mais jovens conseguem a proeza de superar no conservadorismo a geração dos seus pais.
Há uns tempos, a UMAR encomendou um estudo acerca do que os miúdos pensavam sobre a liberdade e as relações amorosas.
Foram questionados seis mil jovens entre os 12 e os 18 anos e metade deles acreditava ser legítimo controlar o telemóvel ou as redes sociais da namorada ou do namorado.
São números brutais.
Como aqui escrevi noutro “Postal” foi com o telemóvel que nasceu uma pergunta que não existia antes:
“Onde estás?”
Já tinhas pensado nisso?
Onde estás?
Para onde vais?
Com quem estás?
E tudo o resto que está implícito numa necessidade de controle que nos contamina como um implacável vírus.
Um vírus que está a rebentar com a liberdade.
4.
É preciso dizer não.
Gritar não.
Dizer que não é normal mexer no telemóvel de outra pessoa, sobretudo se amamos essa pessoa.
Que não é normal entrar nas suas redes sociais.
Que ninguém é propriedade de ninguém.
Que amar alguém, que ser amigo de alguém, é uma coisa muito séria que implica respeito absoluto pelo espaço e pela vida da pessoa que temos ou desejamos ter ao lado.
Não te apagues em função de uma outra vida.
Não te apagues porque estarás condenado ou condenada a um dia acordares sem nada.
Esvaziada.
Seco.
Desabitada.
Oco.
Acordarás e não saberás quem és.
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