1.
O Teatro Praga comemorou 30 anos.
Já não são 30 dias ou semanas ou meses.
Parece impossível que continuem novos, como se o tempo não os contaminasse com a sua passagem.
Não e fácil quando um projeto nasce para rebentar com tudo…
…na maioria dos casos os corpos e as cabeças envelhecem, a revolução é comida pelo conformismo, a juventude pela repetição de fórmulas
2.
Estou a escrever sobre o Teatro Praga na ideia de que os conheces.
Mas vou partir do princípio de que não os conheces, que nunca ouviste falar ou que nunca os viste em cena.
Os Praga são decisivos na história da cultura em Portugal, não apenas do Teatro.
Ocuparam à bruta um lugar iluminado – custa dizer isto, mas ninguém dá nada de borla, os mais velhos raramente prescindem dos seus privilégios para que os mais novos possam mostrar do que são capazes.
3.
Quando os Praga nasceram, em 1995, não pediram licença a ninguém.
Não foram pedir a bênção aos velhos senhores.
Pedro Penim, André Teodósio, Cláudia Jardim e José Maria Vieira Mendes assentaram praça e destruíram convenções.
Recordo a primeira ou segunda peça que fizeram, “O Concílio do Amor” em que Deus é derrotado pelo Diabo que contamina o mundo com sífilis – o mundo transformado num deboche grotesco, os homens na sua miserável condição, a Igreja como semente de grande parte do mal.
4.
Eram miúdos talentosos.
Com pouco mais de vinte anos.
Víamos a Cláudia Jardim no palco e era difícil – uma força interior que nos agredia as certezas, que nos virava as entranhas ao contrário, que nos obrigava ao questionamento.
Víamos André Teodósio, a sua androgenia provocante, a capacidade de nos fazer acreditar na verdade de ser ator, um compromisso total com o que se faz, com o que se é.
Víamos Pedro Penim, atual diretor do Teatro Nacional e desconfiávamos por ser demasiado bonito, demasiado perfeito, demasiado bem-comportado. Só que o Pedro era a alma do projeto, dentro de tudo o que achávamos ser, escondia-se a ideologia, a inteligência pragmática, a necessidade de abrir caminho.
5.
A escrita de Vieira Mendes ganhou asas de vida.
A Adília Lopes encontrou aqui o seu espaço de afirmação.
E o teatro português, uma nova vida.
“Tudo o que é Sólido se Dissolve no Ar” gritaram num dos seus mais emblemáticos espetáculos.
É essa consciência, essa noção de relatividade, que faz com que continuem jovens, arrogantes, cosmopolitas, revolucionários e indomáveis.
Mais importante do que isso, talentosos.
Obrigado, Praga.
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