Nunca viu o mar, mas é tetracampeã do mundo de surf

Marta nasceu cega. Nunca viu o mar. Nunca viu a cara dos que ama. Mas os pais não desistiram. Aos 21 anos, é tetracampeã do mundo de surf adaptado e licenciou-se em Ciência Política.

Nunca viu o mar, mas é tetracampeã do mundo de surf

Marta nasceu cega. Nunca viu o mar. Nunca viu a cara dos que ama. Mas os pais não desistiram. Aos 21 anos, é tetracampeã do mundo de surf adaptado e licenciou-se em Ciência Política.

1.

No lugar do Outeiro, em Viana do Castelo, no princípio de um janeiro, nasceu há 21 anos uma menina esperada.

Talvez a mãe Dulce tenha ido pedir por ela à Igreja Paroquial de São Martinho, talvez tenha feito planos enquanto tomava banho no Rio das Carvalheiras, talvez tenha até comentado com o marido sobre o Museu do Pão, o espaço perfeito para a Marta brincar quando crescesse.

2.

Sempre foi Marta.

Quando estava na barriga já o era.

E quando nasceu parecia ter uma cara igual ao nome, tudo batia certo.

Depois, não.

Depois não foi difícil perceber que a menina não via bem.

Na verdade, não via nada.

Só escuro.

Marta nasceu cega.

3.

Mas outra história começou… ou a mesma.

Como se a Marta fosse como as outras meninas, sem tirar ou pôr.

Ou mais, do tamanho dos sonhos sonhados por Dulce que, obsessivamente, desenhou um plano para que a sua princesa fosse autónoma.

Quis que fizesse desporto, que se mexesse, que aprendesse a cozinhar, que se familiarizasse com a solidão da decisão, com o não depender de ninguém.

4.

Começou a nadar.

E depois a fazer surf na praia do Cabedelo, em Viana do Castelo.

Com um treinador em quem seria capaz de confiar a vida, passou a fazer do mar um modo de vida.

Sem esquecer os estudos, sem chumbar um ano.

5.

Marta Paço nunca viu o mar.

Nunca viu a cara da mãe e do pai.

Dos melhores amigos e do seu treinador, Tiago Prieto, mas no surf adaptado é a melhor entre as melhores.

Tetracampeã do mundo e bicampeã europeia.

Está prestes a licenciar-se em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Nova, e sonha ser campeão paralímpica.

Uma maravilha quando vemos alguém assim.

Como a Marta.

Mas também como a Ângela, a mãe a quem hoje envio este postal.

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