Os pássaros fugiram de nós

Os pássaros alegres já não chegam com a Primavera. Já não cantam nas cidades como antes, é bem possível que se tenham fartado da nossa companhia. Estamos mais sozinhos.

Os pássaros fugiram de nós

Os pássaros alegres já não chegam com a Primavera. Já não cantam nas cidades como antes, é bem possível que se tenham fartado da nossa companhia. Estamos mais sozinhos.

1.

De vez em quando, oiço-os.

Mas a Primavera já não chega da mesma maneira, vem atrasada ou não nasce como era hábito, as flores tornaram-se tímidas nas cidades, como se tivessem receio de incomodar ou de se fazerem notadas.

Mas ainda os escuto, em certas árvores, em certos momentos de pausa das chuvas ou do vento, ou quando estou atento.

2.

Os pássaros não voam como antes, dançam menos, cantam sem a alegria da minha juventude ou então sou eu que perdi a utopia poética de reconhecer a felicidade nos outros… mesmo que seja o sorriso do piar dos pássaros.

Mas há tanto barulho nas cidades…

Talvez exagere, talvez o seu silêncio aos meus ouvidos seja culpa do ruído, da sobreposição de carros e pessoas, mas sinceramente acredito pouco que continuem a piar como antes.

Têm a vantagem de poder arranjar casa barata em árvores mais tranquilas e fora da cidade e são tudo menos parvos, só pode ser isso.

A passarada foi embora dos lugares em que as montanhas de betão se sobrepõem às nuvens.

3.

Os chilreares do rouxinol, do pardal, do melro.

As andorinhas e andorinhões que chegavam no final dos anos letivos.

Os melharucos que habitavam nas árvores de fruto.

Mesmo que não me esforçasse, mesmo que não me pusesse à escuta, ouvia-os com nitidez – eram a banda sonora da vida, um som presente e eterno como todas as coisas que acreditamos serem imutáveis.

Mas nada é para sempre.

Os pássaros fugiram de nós.

Fartaram-se da nossa companhia.

E os nossos filhos e netos já não sabem do que estamos a falar – a sua banda sonora é outra, não podem ter saudades do que nunca verdadeiramente conheceram.

Estamos mais sozinhos.

Não demos por isso, mas estamos mesmo mais sozinhos.

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