Não te admires se eu não voltar

Último "Postal do Dia" da temporada. A ida para férias. A excitação da partida. As malas que não se abrem. Os comprimidos que não podemos esquecer. As crianças inexplicavelmente felizes.

Não te admires se eu não voltar

Último "Postal do Dia" da temporada. A ida para férias. A excitação da partida. As malas que não se abrem. Os comprimidos que não podemos esquecer. As crianças inexplicavelmente felizes.

1.

Vou de férias.

É possível que regresse em setembro, mas também é possível que não o faça.

Quero continuar a escrever postais para ti que me ouves ou lês.

Espero poder voltar na próxima grelha, só que…

2.

Levo os miúdos e terei de os entreter vinte e quatro horas por dia – acordaremos quando o sol nascer porque algum deles me irá acordar por ter fome, sede, querer fazer cocó, ir à piscina, jogar às cartas, ver televisão, mostrar-me um vídeo ou fazer exercícios de matemática.

Não terei tempo para ler, pensar, respirar.

Desforrar-me-ei à mesa com imperiais, presunto, batatas fritas com maionese, pão quente com manteiga molhado em molho de mostarda quando me sentir a enlouquecer.

Levo antidepressivos e comprimidos para a azia.

3.

Vou de férias.

Levo toda a roupa que tenho, antecipo já os gritos para sairmos de casa com quinhentas malas que não chegaremos a abrir.

Levaremos sacos térmicos com suminhos e águas de litro e meio. E numa malinha que não conseguiremos achar, estará pão prensado com queijo e fiambre, ovos cozidos e umas cenas vegetarianas ou vegan.

Costumo guardar pistachios no fundo da mala e quando os voltar a encontrar só existirão as cascas.

4.

Não conseguirei ver a bola.

Saber do mundo.

A Benedita não quererá dormir sozinha numa cama que não conhece. Saltará para a dos pais muito antes de nos podermos despir.

Não nos conseguiremos despir.

Serei depois obrigado a ir à praia.

Detesto a textura da areia.

Nado mal e porcamente.

Não suporto jogar monopólio ou micado.

Detesto anime e abomino o Pikachu e todos os pokemons.

5.

Só que…

…tenho uma enorme vontade de ir.

Estou tão feliz pela felicidade deles.

Compenetrado em fazer o melhor possível.

Em mergulhar numa piscina, ficar a boiar como se fosse um patinho gordo de plástico que os miúdos enchem todas as manhãs.

Irei à praia, não me queixarei da areia, faremos campeonatos pela noite dentro e estarei disponível para tudo o que ainda não sei que gosto.

Deseja-me sorte.

Vou precisar.

Mas… só entre nós…

…não poderia desejar uma vida melhor do que a que tenho.

Voltamos a ver-nos no princípio de setembro.

Não te esqueces?

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