Imagem de Quando a atiraram ao poço, Gisberta tinha consigo as fotografias de criança

Quando a atiraram ao poço, Gisberta tinha consigo as fotografias de criança

Gisberta vai ser o nome de uma rua no Porto. O lugar escolhido fica perto do sítio onde foi assassinada a conta gotas por 14 miúdos entre os 12 e os 16 anos. Era transsexual e morreu exatamente por isso. Luís Osório irá voltar ao lugar e tentar encontrar palavras para o Mal.

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Quando a atiraram ao poço, Gisberta tinha consigo as fotografias de criança

Gisberta vai ser o nome de uma rua no Porto. O lugar escolhido fica perto do sítio onde foi assassinada a conta gotas por 14 miúdos entre os 12 e os 16 anos. Era transsexual e morreu exatamente por isso. Luís Osório irá voltar ao lugar e tentar encontrar palavras para o Mal.

1.

A Câmara do Porto aprovou que Gisberta será o nome de uma rua no Bonfim, perto do lugar onde foi assassinada.

Passaram quase vinte anos.

A autópsia provou que morreu a 22 de fevereiro de 2006, dia em que foi atirada a um poço pelos miúdos que a “assassinaram” durante vários dias, catorze miúdos entre os 12 e os 16 anos que a espancaram aproveitando os furos que tinham nas aulas na Oficina São José e no Liceu Pires de Lima.

Um festim que durou sete dias.

Pedradas.

Pontapés.

Pauladas.

E uma curiosidade crescente de saber se aquela mulher era um homem, uma vontade de a despir por completo para saber se tinha uma pilinha.

2.

Há quase vinte anos, naquele buraco com um poço e um balde, foi espancada durante sete dias.

À vez.

Em grupo.

Por ser transsexual.

Por ser pobre.

Por ser brasileira.

3.

Gisberta que nasceu Gisberto como o pai.

Era a última de sete irmãos, o benjamim que deixou muito feliz o pai. Angelina já não conseguia ouvir o marido e deixou-o até escolher o nome.

Gisberto, como ele.

Só que ele cresceu menina.

Vestia as roupas das irmãs.

A mãe explicava que era por excesso de mimo e o pai alarmou-se com o seu fado, logo o rapaz que escolhera para ver a bola com ele, logo o seu pequenino que imaginou ser o perfeito?

O velho Gisberto morreu cedo e o mais novo libertou-se.

Fugiu do Brasil por causa das ameaças em São Paulo aos transsexuais e chegou a Portugal com vinte anos.

Uma mulher bonita que fez furor e parava o trânsito do Porto. Em alguns espetáculos da noite vestia-se de Marylin com um vestido cor de rosa e um lacinho atrás.

Anos em que pensou poder apaixonar-se e formar a sua família. Não lhe foi possível.

4.

A dependência da droga e a doença tornaram-na mais frágil. O seu corpo emagreceu, os seus olhos embaciaram e foi mudando de casa e de vida até que não lhe foi possível pagar o mais reles quarto de pensão.

Descobriu um buraco com um poço, mas manteve contacto com amigos que a ajudaram.

Ao seu médico mostrava fotografias de bebé e de miúda pequena a brincar com os irmãos ou no colo do pai Gisberto.

Apesar da insistência nunca quis levar os amigos que lhe restavam ao lugar onde dormia. Era a sua privacidade, o seu derradeiro reduto.

O lugar que foi encontrado por uns miúdos.

Que a espancaram à vez e em grupo.

Que lhe despejaram o balde para cima e lhe chamaram nomes.

Que a atiraram para o poço ainda viva.

A filha mais nova de Gisberto vai ser nome de rua no Porto.

Um pai que, afinal, tinha toda a razão: o seu mais que tudo estava mesmo destinado a não ser esquecido.

Texto e programa de Luís Osório


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