1.
Na Índia há centenas de cães vadios.
Vagueiam nas ruas como todos os sobreviventes – procuram matar a fome, o frio e o calor.
Alguns encontram sossego e até o amor.
Um teto, uma família, paz.
A maioria não.
Escondem-se, fogem e evitam contactos com carrinhas e homens que tenham redes enfiadas em pau que, no seu íntimo, sabem representar o fim.
2.
Perto de um centro budista nos arredores de Calcutá um cão paria indiano, de porte médio, pelagem curta e focinho afilado, resolveu seguir monges que saíam de casa em completo silêncio.
Estavam outros cães, mas todos ficaram presos ao bairro…
…assim que os monges se começaram a afastar, os cães foram travando o passo com medo de perderem o seu Norte.
Todos menos um.
Os monges continuaram a andar.
No primeiro dia 30 quilómetros.
No segundo a mesma coisa.
Em silêncio, continuaram.
Um dia, dez dias, cinquenta dias.
Muitas centenas de quilómetros.
E o cão com eles, sempre.
A parar quando eles paravam.
A confortar as pessoas em cada cidade, quando eles confortavam.
A dormir quando dormiam.
3.
Os monges budistas batizaram-no de Aloka que significa Luz.
Quase três meses de caminhada até ao Nepal nesse ano de 2022.
Aloka tornou-se monge, um ícone da paz.
E não houve agência noticiosa global que não tenha relatado a viagem que fez aos Estados Unidos.
Ele e os seus companheiros aventuraram-se numa histórica caminhada espiritual – 3700 quilómetros a andar pela paz no mundo, uma impressionante jornada de fé e compaixão, cinco meses sem parar numa viagem por nove estados terminada em Washington.
Aloka não fraquejou.
Mesmo quando rompeu os ligamentos de um joelho não se ouviu uma queixa, um latido, uma vontade de parar.
Continuou até ao fim dividindo o tempo entre pequenas caminhadas e o carro de apoio.
Voltou depois à Índia onde continua a caminhar com a bênção dos grandes monges.
Já conheceu o Dalai Lama.
E ninguém estranhou que Aloka se tenha deitado aos seus pés e adormecido.
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