1.
Colecionar é uma coisa muito séria.
Sou colecionador de estórias.
Guardo-as, escrevo-as, penso-as.
Mas não foi a minha primeira coleção – em criança juntava caixas de fósforos.
Guardava-as numa caixa de bolachas e depois precisei de uma outra caixa e a coleção acabou antes de ter começado.
2.
Adoro colecionadores.
São um bocadinho cromos, uns mais do que outros, mas gosto das pessoas que juntam coisas, que acumulam e são extravagantes.
Há-os para todos os gostos.
Colecionadores de moedas, fios de cabelo, bolas de bowling, selos, sabonetes, vinis, preservativos e pregadeiras.
Por cada maluquice há um colecionador, não há limites para a criatividade.
3.
Um dos meus preferidos chama-se Carlos Vences, é alentejano e coleciona penicos.
Se tiveste a ousadia de te rir, não o faças.
Não desvalorizes o penico, o objeto mais importante para os avós que já não conhecemos… e para alguns que conhecemos.
O que seríamos sem ele?
E incluo reis, rainhas, princesas, mais os marqueses, papas, aristocratas, burgueses e todos os ricos.
Vemos os filmes das cortes, os bailaricos e as festas, mas raramente observamos as divisões onde os penicos eram estrategicamente colocados para os convivas se aliviarem.
4.
Carlos Vences começou a colecioná-los por causa de um avô que não conheceu.
O pai recebera em herança um bacio lindíssimo de porcelana francesa.
Um bacio de rico, com tampa pintada à mão com cisnes, um lago e um castelo ao fundo.
O pai de Carlos ligava pouco ou nada áquilo e não foi difícil ao miúdo ficar como fiel depositário da memória da intimidade do avô.
Daí até pensar em fazer uma coleção foi um passo.
5.
Carlos Vences tem penicos de ricos e remediados.
Quase se pode fazer a história da luta de classes através dos penicos guardados por Carlos como se fossem barras de ouro.
É certo que não tem o célebre John Bull desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro para satirizar os ingleses após o ultimato de final do século XIX – o objeto está no Museu Soares dos Reis e nunca chegou a ser comercializado.
A ideia era que os portugueses pudessem obrar para dentro do John vingando-se assim da humilhação dos pálidos ingleses.
6.
Carlos tem penicos que se partem e inquebrantáveis.
De porcelana e de madeira.
De cerâmica ou de plástico.
De barro ou até de vidro.
Na sua coleção deve ter os que eram usados em viagens, os de crianças, os altos e os baixos, os redondos e achatados, os cheirosos e os que se limitavam a receber o cheiro da evacuação.
Enfim…
…obrigado, Carlos Vences.
Um dia vou visitá-lo e talvez possa, com mais rigor, perceber as diferenças entre materiais e épocas.
Nada como experimentar.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.