1.
A minha avó Joaquina só tinha dois vícios, dois únicos luxos: comprar a Crónica Feminina e a Maria.
Li-as no final do dia e ao domingo.
Começava pelos resumos das novelas – não havia mais do que uma ou duas brasileiras.
E depois seguia o curso normal da revista, do princípio até ao fim.
2.
A Crónica nunca me interessou, mas tirava-lhe a Maria da gaveta para devorar as páginas do consultório sexual que foram a minha iniciação a um mundo desconhecido.
Nunca vivera com os meus pais na mesma casa.
Nunca vira as minhas avós beijarem os meus avôs.
Na escola, tanto na primária como na preparatória, as colegas preferiam outros meninos, nunca me escolhiam a mim para bailar ou para passeios no jardim.
3.
A revista Maria era uma das melhores coisas da minha semana.
Ia para o quarto, deitava-me na cama com a bonecada à volta e lia as perguntas e as respostas.
– Beijei o meu namorado, será que estou grávida?
– Aumentei de peso e estou com barriga, tenho vergonha e evito que ela me veja nu. Como o sexo é raro ela acusa-me de eu ter uma amante.
– Tenho várias mulheres, salto constantemente de cama para cama. No entanto, tenho um fetiche que me preocupa: compro cuecas femininas de fio dental, visto-as, maquilho-me e coloco uns saltos altos. Será que sou gay?
– Tenho o vício de ver filmes pornográficos depois de toda a gente se deitar. Vivo agora com o pavor de que a minha mulher me apanhe no sofá.
– O meu marido tem um pénis muito pequeno, mal o vejo. O que posso fazer com ele?
4.
E por aí fora.
Não voltei a ler a revista Maria.
Não sei sequer se ainda existe o consultório sexual.
Mas tenho saudades do tempo em que éramos ingénuos.
A leitura da revista era uma transgressão e aquelas perguntas uma descoberta.
Hoje, rimo-nos muito.
E os nossos adolescentes gozam com o que éramos em comparação com o que eles são.
Não têm razão.
Por estranho que lhes pareça, falta-lhes o que acham ter de sobra.
Escapa-lhes a verdadeira transgressão – a que os faz crescer sem terem de provar nada aos amigos e ao mundo, a transgressão que só depende deles…
… ler Henry Miller ou D. H. Lawrence é mais poderoso do que qualquer coisa que saibam mesmo achando ter muita experiência.
Ou ler as perguntas da Maria – a escandalosa descoberta do que em cada um é ingenuidade e espanto.
Num mundo em que a ingenuidade é tão criticada e o espanto, como a dúvida ou a importância da pergunta, são tão desvalorizados, apetece-me agradecer à revista Maria e às perguntas que me despertaram para o incrível e ridículo mundo dos adultos.
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