1.
Há dezenas de estórias à volta de espelhos.
A Rainha Má dos Irmãos Grimm
A Alice que passa para o outro lado do reflexo
O conto de Machado de Assis
O espelho das feiras populares que nos faz rir de tanto nos distorcer…
Há muitos espelhos, o de Narciso, inevitavelmente.
O dos vaidosos, dos envergonhados, dos megalómanos, desajeitados e até dos desafinados como no samba de Jobim.
2.
Depois, há o nosso.
O meu, o espelho em que me vejo nos poucos dias em que me decido mesmo ver.
O meu, na casa de banho onde me fecho todas as manhãs e onde, todas as manhãs me olho sem me ver, olho como se aquilo que está refletido fosse uma ilustração das trombas de outro que não eu.
3.
Falo do meu espelho para me acompanhares neste pensamento alto, para pensares no que vês quando te decides ver.
Comigo acontece-me pouco.
Estou sempre a correr, ensonado, vejo mal.
Mas há momentos em que acontece – por casualidade, por decisão ou por um motivo misterioso e parecido com o da Bruxa Má.
Nesses dias, para te ser completamente sincero, o espelho nunca me respondeu às perguntas que lhe faço.
Quem sou realmente?
O que faço aqui?
Que vendaval passou na minha cara para agora ser este?
Onde tenho o que em mim era juventude?
4.
Por este postal é que não esperavas, aposto.
Mas se acontece comigo é bem capaz de acontecer com outras pessoas, contigo que me ouves.
A relação com o espelho.
Com o tempo.
Contigo.
Uma relação difícil, mas necessária.
Mas vai por mim.
Quando o olhares não vale a pena o sofrimento de o fazeres com total intensidade.
Já experimentaste?
Fixar o espelho o mais intensamente possível. A nossa cara começa a deformar-se como naquelas salas das feiras populares
em que nos olhamos e somos gigantes, anões, monstros ou príncipes se formos suficientemente vesgos ou egocêntricos.
A nossa cara passa a ser outra quando o fazemos sozinhos, quando nos olhamos com toda a força de que somos capazes.
Às tantas deixamos de nos reconhecer e assustamo-nos…
…desculpa, percebi agora que estou a falar por ti, é errado por não saber se é verdade.
Quando me olho mesmo, não me reconheço, isso sim.
É um outro que ali está, uma outra imagem, como um quadro de Bacon ou um filme de Lynch quando nos obriga a entrar em salas proibidas por as desejarmos e as temermos.
Ai, espelho meu.
Há alguém assim como eu?
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