1.
Trocava as doze passas, que daqui a bocadinho trocarei por promessas, pela possibilidade de passar pelo Saldanha, em Lisboa, e dizer adeus ao “Homem do Adeus”.
Trocaria sem hesitar o batuque dos tachos que espantam espíritos impossíveis de espantar, pela loucura de o ver outra vez a acenar a todos os carros que passam.
Quando surgiu, numa Lisboa que já não existe, como se fosse um Andy Warhol a céu aberto ou uma aparição de um filme de Fellini capaz de corromper a realidade, não foi logo compreendido.
A maioria gozava o prato.
Abria a janela e gritava
“Ó maluco, vai para casa”
Depois não.
Depois nunca mais ninguém.
2.
O Homem do Adeus devia ser nome de rua.
Durante anos foi o que precisávamos sem que soubéssemos que precisávamos.
Parecia solitário, a mais solitária das pessoas.
Mas amplificava o tanto que tantos de nós sentíamos – era o símbolo de uma cidade esvaziada de afetos, esvaziada de contacto humano, de empatia.
Parecia louco, um louco de Lisboa.
Mas era a metáfora perfeita de uma cidade com tanta gente sozinha… mesmo estando acompanhada.
Parecia um espectro, um fantasma quase vivo.
Talvez o fosse… talvez o fosse.
3.
Neste último dia do ano preciso de recordar o Homem que nos dizia Adeus todas as noites em que passávamos por ele, em que íamos ao seu encontro.
João Manuel Serra, assim se chamava.
Extravagante, de boas famílias.
Cheguei a ir à sua casa, uma casa que parecia um palácio de um outro tempo.
Sem criados, sem terrinas de ouro, sem cães senhoriais sentados à lareira, mas tudo isso me parecia lá estar.
João Manuel, quando saía das ruas, no princípio das suas madrugadas, regressava ao palácio em ruínas e, no caminho, os carros continuavam a apitar-lhe na súplica de um “olá”, de um cumprimento, de um sorriso.
Saía das ruas e chegava à sua casa mágica, cheia de vida invisível, de presenças, de assombrações.
Não me lembro como se chamava a sua mãe.
Mas sei que era ela que ele via em todas as esquinas.
4.
João Manuel morreu em 2010.
Tem uma placa feita pelo escultor José Aurélio.
Tem um fado que lhe é dedicado por Marco Rodrigues.
Tem um livro.
E tem a memória do que foi.
O Homem do Adeus não tem o nome de uma rua, mas ele é a parábola de todas as ruas quando se esvaziam de afetos.
Mas também a esperança de que nada é para sempre.
A esperança de que pode sempre nascer a vontade de abraçar, de dizer olá, de acenar, de sorrir a quem passa, de sermos mais uns dos outros, de sermos menos apenas de nós próprios.
Um bom ano.
Boas entradas.
E que nos abracemos sempre que nos encontrarmos.
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