1.
Entre os lugares de sombra, entre os sítios que me entristecem, há um que é luz e me oferece sorrisos que são mais fortes do que qualquer melancolia.
A Casa do Artista é passado, mas é glória.
É um lar, mas é partilha e respeito.
É tristeza, mas obriga à alegria.
É esquecimento, mas constantemente memória.
Raul Solnado e tantos outros tiveram o sonho de um lugar assim.
De acolhimento dos que dificilmente eram acolhidos por, no final das suas vidas, não terem onde ficar.
Ser artista é um pouco isso,
Ganha-se muito em cima de um palco, depois perde-se tudo – primeiro os aplausos, depois as atenções, depois o dinheiro, depois a dignidade.
2.
Muito se fez ainda assim.
Mas o sentido é esse e a Casa do Artista, agora liderada por José Raposo, tem sido porto de abrigo e guardião da dignidade de tantas figuras que, num outro país, teriam altares e outro conforto.
Há gente enorme que por lá passou.
Atores e atrizes, cantores e cantoras, cenógrafos, bailarinos, cuspidores de fogo e palhaços, poetas e loucos, encenadores e pintores.
Muitos lá sopraram o seu sopro final.
Outros lá se mantêm, a começar pela maior de todas as maiores, a minha/nossa Simone de Oliveira, única diva depois de Amália.
3.
Hoje quero falar-te de um outro.
Um homem esmagador, mais de 1 metro e noventa, forte e magnético que, quando chegava aos sítios, se percebia logo que chegava.
Não apenas por ser grande, mas por ser mítico.
Como compositor, agitador, escritor, sedutor, cartoonista, intelectual do boulevard lisboeta.
Tem 84 anos e deixou-se ir abaixo nos últimos tempos.
O corpo cedeu à revolução permanente, à obsessão de viver, à vontade de fazer mais, de dar mais, de ser mais.
4.
Jantei com ele no Café Império.
Não foi há muito, talvez logo a seguir à pandemia.
Pediu um bife malpassado praticamente em sangue.
Perguntei-lhe se não lhe fazia mal e ele ridicularizou-me: “Porra, a vida é para viver o mais intensamente possível. Não podemos ter medo dela. E não ter medo dela é viver como se fossemos eternos, como se isto fosse para sempre”.
5.
O homem de que te falo chama-se Nuno Nazareth Fernandes.
Está na Casa do Artista e um dia que parta tenderemos a menorizar o seu extraordinário percurso.
O Nuno é enorme não apenas por desejar devorar o mundo desde a infância privilegiada de menino bem lisboeta.
Fez engenharia e foi para a guerra na Guiné sem nunca fugir de um destino que o empurrou sempre para a noite, para a criação, para a música que compunha com a mesma desenvoltura do que escrevia, do que gritava, do que tentava construir.
Era um irmão para Ary dos Santos – os dois funcionavam de olhos fechados, um dizia os poemas e o outro musicava-os logo a seguir.
Tinha o condão de inventar melodias que ficavam na cabeça.
A “Desfolhada” nasceu numa noite de copos.
Os dois a gritar impropérios e a porem no papel o que se transformaria num bocadinho da nossa história.
Ou a “Menina” que inventou para Tonicha.
6.
Querido Nuno, enorme Nuno Nazareth Fernandes.
Que pena não termos comido mais quatro ou cinco bifes em sangue.
Faltou-nos falar de tanto.
Da tua passagem pela maçonaria e da tua expulsão da maçonaria.
Dos livros de história que devoras, da loucura que tens pelos templários.
Dos teus dias aí, do que te falta fazer, do que deixaste por saber, de uma ou outra história do meu pai que não me quiseste contar.
O país agradece-te pela liberdade.
Por esse excesso de liberdade que foi vento bom, que foi transgressão criativa, que foi pergunta muito mais do que resposta.
Passo por aí um dia destes.
E passo mesmo porque isto passa muito depressa.
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