1.
Não há figura mais forte e inspiradora do que a de Fausto Sousa.
Nasceu com paralisia cerebral e habituou-se ao olhar condoído dos por ele passavam.
Fausto tem hoje mais de cinquenta anos e recorda a infância e a sua condenação sem culpa, a impossibilidade de poder ser qualquer coisa fora da cadeira de rodas ou das paredes protegidas da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra.
2.
Só que o Fausto era especial, sentia uma loucura boa dentro da cabeça, a música transportava-o para uma outra dimensão.
Sons pesados…
…heavy metal, o punk dos Sex Pistols ou dos Clash.
Fausto tornou-se punk e virou o lugar dos condenados do avesso – mobilizou vontades, entusiasmou outros como ele, pediu a terapeutas para o ajudarem a ser o que estava destinado a ser: músico.
3.
A história é incrível.
Dele e do Francisco Sousa, musicoterapeuta da Associação que selou um pacto com o sonho do Fausto.
“Queres mesmo ter uma banda? Vamos embora!”
Com o entusiasmo do terapeuta, Fausto formou um projeto punk com outras pessoas com paralisia cerebral a que juntou dois amigos com deficiência mental.
Nasceram como banda no Natal de 1993.
E os dois, Francisco e Fausto, batizaram o projeto como 5ª Punkada.
4.
Passaram mais de trinta anos e Fausto continua a tocar e a cantar em concertos e, em algumas noites especiais, é convidado para pôr música punk em lugares de culto.
É uma estrela à sua dimensão.
Uma dimensão estratosférica e inigualável.
Em 2021, logo após a pandemia, lançaram o primeiro disco – “Somos Punks ou Não?”.
Seguiram-se vários espetáculos em salas maiores, entrevistas e até um documentário.
5.
Quando lhe perguntam o que sente quando sente.
Ou quando querem saber o peso da paralisia cerebral, da dificuldade de mover-se, do olhar dos outros, nem sempre entende o que lhe perguntam.
Para Fausto, mais do que esse ou qualquer peso, existe a tragédia de uma noite que parecia feliz.
Num concerto na Guarda, antes de serem mais conhecidos, o seu Francisco, sentiu-se mal e tombou como se tivesse sido chamado de urgência por algum emissário de um outro mundo.
Morreu naquela noite e Fausto achou que morrera com ele.
Mas um punk é um punk.
Não poderia sê-lo se desistisse.
Pelo contrário, precisava de transformar a tragédia num motor para ir mais longe.
Francisco não apareceu mais, mas deixou o Fausto e a sua banda de cúmplices.
A Fátima, o Jorge, o Miguel e o Paulo.
Os 5ª Punkada.
Grandes.
Indomáveis.
Inspiradores.
Selvagens.
Absolutamente, Punks.
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