O mais talentoso torturador da PIDE mal sabia ler

Faz hoje 52 anos que um homem chegou ao sítio onde trabalhava com a ideia de que tudo valera a pena. Era o mais respeitado torturador da PIDE embora mal soubesse ler.

O mais talentoso torturador da PIDE mal sabia ler

Faz hoje 52 anos que um homem chegou ao sítio onde trabalhava com a ideia de que tudo valera a pena. Era o mais respeitado torturador da PIDE embora mal soubesse ler.

1.

Há precisamente 52 anos, no dia 24 de abril de 1974, na Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE, um homem sentia-se recompensado.

Tinha subido a pulso.

Uma vida de trabalho, de abnegação e de sacrifício pela Pátria.

É certo que na vida nada é perfeito, o homem de que te falo estava apaziguado, mas ainda não se refizera da morte de Salazar, a figura que mais amara.

2.

Chamava-se Adelino da Silva Tinoco e nascera na aldeia de Arazede, concelho de Montemor-o-Velho.

Abalou jovem para Lisboa onde entrou na PIDE para fazer o que fosse preciso.

Tinha a 4.ª classe, mas era esperto.

Tinha força bruta e ambição.

Aprendeu o ofício com os mais velhos, mas rapidamente o aprendiz substituiu os mestres na arte de humilhar e espancar comunistas e subversivos.

3.

Tinoco era baixo e a sua cara transformava-se nos interrogatórios.

Não fazia distinções entre homens e mulheres, adorava rebentar a arrogância das comunistas como Conceição Matos a quem proibiu de ir à casa de banho durante vários dias, a quem espancou deliciado, a quem humilhou chamando agentes para a verem despida e suja.

4.

Não penses que era um bárbaro.

Tinoco mal sabia ler, mas admirava Silva Pais e Barbieri que cheiravam bem, que vestiam bem, que eram de boas famílias.

Queria ser como eles, dar aos seus a oportunidade de serem distintos.

Chorou baba e ranho quando foi condecorado em São Bento.

Pagava o almoço aos mais novos quando o dinheiro se acabava no final do mês.

5.

Considerava-se uma boa pessoa.

Ia à missa.

Comungava.

Dizia o Pai Nosso e o Credo.

Gostava de queimar velinhas em Fátima.

Tanto como gostava de rebentar à porrada traidores de Salazar.

Tirava-lhes as unhas, apertava-lhes mamilos, batia-lhes onde mais doía, era catedrático na máquina de choques elétricos, na tortura do sono, na estátua.

Ia às lágrimas de tanto rir quando fazia sons que enlouqueciam presos depois de quatro ou cinco dias sem dormir.

6.

Tinoco era perfeito.

Mal sabia ler, mas conhecia tudo sobre o sofrimento.

Era o mais competente dos que torturavam, o que mais confissões arrancou.

E no dia 24 de abril de 1974, há precisamente 52 anos, estava contente no seu gabinete na Rua António Maria Cardoso.

Tinha estatuto, fora nomeado inspetor-adjunto no ano anterior, sentia-se recompensado e retribuído pela vida.

Pela sua cabeça não passou a estranha e extravagante ideia de que, no dia seguinte, o seu mundo colapsaria.

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