1.
Quando tocam as badaladas da meia-noite de todos os primeiros dias de todos os anos, há sempre médicos e enfermeiros que, nos hospitais, trocam passas e bebem um bocadinho de champanhe.
Médicos e enfermeiros de banco que interrompem a vigilância para se desejarem o melhor.
Depois regressam aos cuidados intensivos e às urgências sempre concorridas na primeira madrugada do ano.
2.
Fazem o que têm a fazer, dirão alguns de nós.
Mas os que o proclamam nunca foram internados, nunca tiveram de se deitar numa cama de hospital, nunca se sentiram desamparados, frágeis e dependentes dos cuidados de saúde.
Dedico este primeiro postal aos médicos.
E aos miúdos que estudam para ser médicos num tempo em que o ser parece uma coisa de pouca importância.
3.
Não existe a noção clara do quanto um médico tem de estudar para ser médico.
As médias de que precisa, os anos de licenciatura, os de internato, os de especialização.
Não há ninguém que trabalhe mais.
E em retribuição é muito pouco o que se lhes devolve.
Claro que têm o resto. Como os professores.
São as profissões mais bonitas que se poderiam desejar.
Salvar ou ensinar alguém é colocar o ser humano no centro, é ser futuro.
4.
Neste primeiro dia de 2026, abraço também António Maia Gonçalves.
Foi nomeado pelo governo para ser o coordenador do Programa de Envelhecimento Ativo. Não sei como está a correr, mas não é por isso que o abraço.
Faço-o por ter dedicado uma vida aos cuidados intensivos.
Por ser venerado pelos seus doentes, por confrontar todos-os-dias a morte com vida, com entusiasmo, com uma paixão que nos contagia a ser como ele.
5.
António Maia Gonçalves é médico intensivista e doutorado em Bioética.
Quando o conheci, há relativamente poucos anos, era diretor de serviço de Medicina Interna e Cuidados Intensivos da Casa de Saúde da Boavista, no Porto.
Foi buscar-me à estação de comboios e, naquele curto caminho, percebi que jamais conhecera alguém assim.
Fumava, falava enquanto conduzia e tirava os olhos do volante para que a conversa fosse mais próxima…
…além de estar desgrenhado, despenteado e desfraldado.
6.
Cheguei vivo ao lugar onde ia apresentar o seu livro – “Histórias de Bioética em Cuidados Intensivos”.
Começaram a chegar pessoas.
Depois mais.
E ainda mais.
Centenas de pessoas, muitos que foram seus doentes.
Vi-os a aproximarem-se, a abraçarem-no, a chorarem, a agradecerem.
E vi Maia Gonçalves a tratá-los a todos pelo seu nome, a chamar-lhes “querido” e “querida”, a contar-lhes de si e a ouvir.
7.
Neste primeiro dia do ano não digas que os bons estão todos a morrer.
Porque é mentira.
Há muitos bons vivos e a fazer o Bem.
E muitos médicos e enfermeiros que hoje estiveram ao serviço dos que precisaram.
Obrigado.
E um bom-ano!
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