1.
Não há nenhuma história como esta.
Pelo menos eu não a conheço e conto-as todos os dias há muitos anos.
É a um futebolista que te quero apresentar.
Brasileiro, bonitão, simpático com graúdos e humildes, louco com mulheres e o maior trapaceiro que alguma vez o mundo viu.
Carlos Kaiser foi futebolista profissional em grandes clubes durante mais de dez anos, mas com uma particularidade: nunca jogou um único jogo e não há um só registo de alguma vez ter tocado numa bola.
2.
Kaiser, ainda jovem, subornou dois ou três jornalistas desportivos.
Inventou um currículo, paginaram-se entrevistas falsas do seu tempo no México onde, supostamente, marcara mais de cem golos em dois anos – golos de bicicleta, de cabeça, fora da área, dentro da área e com a peitaça.
Saíram notícias que o davam como certo na Europa e do seu desejo de ficar no Brasil por ter a mãe a seu cargo.
Assim começou a aventura.
Carlos Kaiser foi contratado com um salário de príncipe pelo Botafogo.
E depois pelo Flamengo.
Pelo Vasco da Gama.
Pelo Fluminense.
Pelo Bangu.
E pelo América.
Ainda deu uma perninha no Puebla mexicano.
Mais de dez temporadas a ganhar ordenado de estadão sem tocar numa bola e sem fazer um único jogo.
3.
Naquele tempo, década de 1970, não havia internet e a informação não circulava.
E ele, não o menosprezemos, era um verdadeiro génio da dissimulação.
Quando chegava a um balneário tornava-se rei.
Arranjava festas com mulheres bonitas, ajudava no que fosse preciso, era o baladeiro e a pessoa com quem todos adoravam estar – quando chegava a altura de ser contratado, os craques, como Renato Gaúcho, pressionavam os patrões do clube para que o negócio acontecesse.
E depois, no primeiro dia de treinos com bola, simulava lesões musculares impossíveis de detetar por falta de máquinas que pudessem fazer uma simples ressonância.
4.
Um azar dos diabos, queixavam-se os presidentes.
E Kaiser ficava todo o ano no centro médico, sem tocar numa bola.
Uma vez, no Bangu, quando dele começaram a desconfiar, o presidente prometeu-lhe uma fortuna se entrasse em campo.
Muito a custo, Carlos Kaiser teve de ir a jogo.
Começou no banco de suplentes e o estádio, toda a primeira parte, gritou desalmadamente pelo seu nome.
Quando o treinador lhe pediu para aquecer as bancadas iam vindo abaixo, mas acabou expulso antes de entrar pois arranjou um trinta e um com a claque adversária.
Acabou tudo à porrada.
5.
Quando não havia praticamente telemóveis, Kaiser tinha um de imitação.
Simulava conversas em inglês com empresários fantasmas. Falava da possibilidade de ir para o Real Madrid ou para o Barcelona, inflacionava os seus contratos.
E noutra apresentação puseram-lhe bolas para ele dar uns toques.
Não se atrapalhou… pontapeou-as todas para a bancada onde estavam os sócios e agradeceu beijando o emblema com as lágrimas nos olhos.
6.
Kaiser é vivo e está de boa saúde.
Melhor do que nunca.
É personal trainer de mulheres num ginásio no Rio de Janeiro.
Continua a ser popular entre estrelas de novela e os principais jogadores da bola – Neymar e Vini Júnior são seus fans.
Carlo Ancelloti, novo treinador da seleção brasileira, quis conhecê-lo e quase o contratou para psicólogo do “escrete”.
Teria sido uma contratação de peso.
Carlos Kaiser: o melhor jogador da história do futebol sem nunca ter jogado um único jogo, sem nunca ter tocado numa bola.
Que craque!
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