1.
Entre as estrelas da televisão portuguesa poucos conseguem dividir tanto as águas como Cláudio Ramos.
Ganhou estatuto fazendo o contrário do que era suposto.
Politicamente incorreto quando o mundo pede certinhos que não façam ondas.
Não excessivamente simpático quando todas as figuras públicas precisam de o ser.
Acintosamente sincero e sem filtros quando isso, regra geral, se paga caro.
2.
Cláudio Ramos desarma com a autenticidade.
E é inteligente na gestão da intimidade, o público acredita saber tudo dele, mas pouco se sabe da sua vida.
Vemo-lo a dançar em casa.
Vemo-lo em cuecas, percebemos que é centrado em si e no seu corpo, que é irritantemente vaidoso e arrogante, ouvimo-lo falar de coisas que provam proximidade, mas se pensarmos bem, Cláudio mostra pouco de si – apenas a superfície.
É extremamente hábil nesse jogo de máscaras.
3.
A sua homossexualidade deixou de ser um assunto embora ele saiba que é um assunto.
Teve coragem em assumi-lo quando existia a possibilidade de perder com a revelação – Manuel Luís Gocha era um farol, mas era impossível compará-los quando Cláudio o revelou.
Goucha tinha uma relação de muitos anos, estava num outro patamar e era mais velho… de uma idade em que tudo se suporta melhor.
Cláudio, não.
Tinha uma filha, saíra de um casamento, era demasiadamente jovem, demasiadamente livre, demasiadamente irritante na sua autodeterminação.
Tinha tudo para correr mal.
4.
Não correu.
E admiro-o por isso.
Mas a sua vida, acredito, não é um passeio no parque.
Basta que aconteça alguma polémica ou que diga qualquer coisa que pareça inócua…
… como…
… “estou a sentir-me muito cansado, preciso de umas férias”…
… basta isto para ser inundado com insultos, ameaças e baba de gente cuja vida depende do vício da maldade.
Gosto de reconhecer a diferença.
Gente que não é igual à maioria.
Gente que arrisca e que perde quase sempre.
Cláudio Ramos ganhou.
E tem coragem.
Não é condição que possa ser desprezada.
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