Os Anjos tiraram um bilhete para o inferno

Afinal, o julgamento do ano não é o de Sócrates ou Ricardo Salgado. Afinal, o povo português prefere mil vezes acompanhar os Anjos na sua descida ao inferno. Não há pipocas que resistam.

Os Anjos tiraram um bilhete para o inferno

Afinal, o julgamento do ano não é o de Sócrates ou Ricardo Salgado. Afinal, o povo português prefere mil vezes acompanhar os Anjos na sua descida ao inferno. Não há pipocas que resistam.

1.

Só no último mês, em mensagens privadas ou comentários à vista de todos, fui chamado de quase tudo.

Oportunista.

Machista.

Maricas.

Cobarde.

Medíocre.

Canalha.

Em mensagens para o meu telemóvel houve quem dissesse sentir vergonha de mim…

Isto para não falar da política…

Uns que gritam comuna.

Outros que sou uma vergonha por trair a esquerda.

Ou no futebol quando me chamaram lampião.

Ou quando os lampiões me gritaram que traí o Benfica por ter elogiado o Sporting ou o Porto.

No princípio deste mês houve quem afirmasse que eu era esperto por ter filhos que serviam para esconder a minha homossexualidade e quem jurasse que odiava as mulheres e devia ser cancelado.

Os fachos ameaçam-me assiduamente.

E os comunistas tratam-me assiduamente como um pária.

2.

Não te quero falar de mim.

Se o faço é para tocar ao de leve no assunto que tem divertido os portugueses – e a mim também, envergonhadamente confesso.

Os Anjos.

O julgamento do ano.

A indemnização de mais de um milhão de euros pedida pelos dois cantores a Joana Marques.

3.

Já me ri muito com esta parvoíce.

A referência aos problemas de acne é uma obra-prima do nonsense.

A confissão de que um deles não deseja que os filhos o vejam, em algum momento, como um assassino, é de arrepiar.

Mas o que constrange, o que realmente surpreende, é assistir em tempo real ao mais rápido assassinato de uma carreira artística por parte dos próprios.

4.

É que o gozo de Joana Marques é legítimo, é o seu trabalho e o humor não pode ser colocado em causa.

Ou, pelo menos, não pode ser colocado em causa quando, como neste caso, o que a Joana fez, sejamos sérios, não tem importância alguma.

Foi inócua.

Pode doer, eu também já me queixei do melhor humorista português – e o que Ricardo Araújo Pereira me fez foi incomparavelmente mais duro.

Pode doer, mas aguentar é um sinal de inteligência e de respeito pela liberdade, pela democracia, pela comédia que tem, tantas vezes, salvado o mundo e o país da barbárie.

5.

Quem aconselhou os Anjos a este suicídio público?

Como é que eles poderão continuar a cantar em feiras e arraiais por esse país fora sem serem gozados?

Um milhão de euros?

Acne?

A dificuldade de encararem os filhos?

Se tivessem ironizado com a situação e entrado na brincadeira o assunto teria morrido no próprio dia da piada da Joana.

Mas preferiram dar-se à morte.

Talvez por publicidade, talvez por acharem que muita gente estava disponível para os defender, talvez porque as pessoas que os rodeiam estarem numa bolha e não compreenderem o mundo, talvez pela soma de tudo isto, não sei.

O que sei é que os Anjos se afastaram do paraíso.

Pode ser que um dia regressem ao Éden, mas a escolha de tirar dois bilhetes para o inferno foi sua.

Disponível posteriormente em Spotify, Apple Podcasts, YouTube e RTP Play.