1.
Desesperamos tantas vezes com os nossos filhos.
Quando crescem colocam-nos num lugar que nos surpreende, que nos assusta. Às vezes, muitas vezes, as suas referências passam a ser os seus amigos…
…às vezes, muitas vezes, a família das namoradas ou dos namorados parece ser-lhes mais próxima do que a nossa.
Quando nos preocupamos, somos chatos.
Quando os beijamos em público, somos repreendidos.
Quando nos zangamos, dizem-nos que são donos de si próprios e que estão a viver a sua vida, não a nossa.
2.
Quando são pequeninos é melhor.
Mas é tão difícil também.
Porque estão doentes, porque ficamos extenuados por uma dependência que rebenta com as nossas rotinas, com os nossos prazeres, às vezes até com a nossa vida íntima.
E depois é uma inquietação permanente.
Se caem, assustamo-nos.
Se a febre aumenta em noites escuras, recordamos que o mal também nos pode tocar.
Se discutimos com quem está ao nosso lado, receamos por eles e dilaceramos com a culpa que sentimos ter.
3.
Se tens filhos, sabes do que te estou a falar.
E se não sabes do que te estou a falar é porque as coisas não estão a correr bem.
Porque tudo o que escrevi e te disse antes, são boas notícias.
Ser pai e ser mãe é mesmo assim – uma inquietação permanente, uma prova de humildade, um teste ao que somos, desejámos e ao que acreditávamos ser inquebrantável numa ideia de família.
Os filhos são eles, mais o que nos acontece depois de nascerem e ao longo do tempo.
4.
Porque serão para nós sempre miúdos.
Acordaremos sempre a meio da noite quando se atrasam nas saídas noturnas.
E quando já não está em casa continuaremos a acordar sobressaltados e com vontade de lhes ligar para saber se está tudo bem, se precisam de alguma coisa.
É dura a fase em que parecem preferir outros, mas isso também é bom. Se nos mantivermos tranquilos, se os respeitarmos, eles e elas voltarão para nós como se nada tivesse acontecido…
…porque para eles nada aconteceu.
5.
Quase tudo o que nos perturba são boas notícias.
Até quando caem e sofrem.
Não podemos desejar que não se magoem, que não se desequilibrem. Porque eles precisam disso, dependem disso.
Ser pai é, algumas vezes, sofrer com o que se deseja, com o que é melhor para eles.
Sofrer também pela necessidade que têm de nos “matar”, de nos anular para que possam seguir caminho pelo seu próprio pé, para que se possam encontrar.
Temos de os deixar ir.
Sofremos com isso, mas temos de os deixar ir.
Dizer-lhes apenas que estaremos sempre para eles onde e quando quiserem que estejamos.
6.
Não há nada melhor do que ser pai e do que ser mãe.
Não é um mar de rosas, calmo e paradisíaco.
A nossa vida muda e perdemos muitas coisas importantes. Mas há qualquer coisa de mágico no que ganhamos.
Passamos a ser mais.
Descobrimos um amor que supera o amor.
Um sentido de proteção que supera tudo o que conhecíamos antes.
Ter filhos é sempre acreditar no futuro.
Ter esperança que se cumpram e que o tempo se cumpra para eles.
Que em 2026 nasçam muitos bebés… se possível dentro das maternidades.
Que em 2026 possamos acreditar um bocadinho mais no que é realmente importante.
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