1.
Tomei a liberdade de lhe enviar ontem uma mensagem.
A desoras.
Entre a festa do homem que lhe irá suceder e a chegada de mais uma madrugada – nestes tempos de arruaça e imprevisibilidade, meu querido Presidente, cada madrugada que chega deve ser celebrada como uma bênção.
Celebremos então todas as madrugadas de todos os dias.
2.
Há um novo Presidente da República eleito.
Ganhou a democracia.
Perfeita num conjunto de imperfeições que nos vão moldando a cabeça e as vísceras.
Estou aliviado, julgo que também estará, mas caro Professor Marcelo, meu querido amigo, que nunca lhe passe pela cabeça que não valeu a pena, que foram dez anos que poderiam ter sido outra coisa, que a tristeza das derrotas superou a felicidade do dever cumprido.
3.
Caro Sr. Presidente
O vento não pode ser parado com as mãos, mesmo pelas suas.
Foi o que foi.
Aconteceu o que aconteceu.
De si ficará a memória de um homem extraordinário.
Talvez seja a sua virtualidade e o seu defeito, é demasiado inteligente, demasiado rápido no pensamento, demasiado bem-intencionado, demasiado psicossomático.
Mas também é o paradoxo.
Afetivo e cerebral.
Dos abraços, mas da solidão.
Do otimismo, mas sente-se em si o esmagador peso dos pecados do mundo.
É professor, mas dentro de si talvez tenha crescido a vontade de voltar a ser ensinado, de regressar a um outro tempo e começar tudo de novo.
Baralhar e voltar a dar.
É de Deus e do silêncio, mas acreditou sempre, até quase ao último instante, que deveria ser o Presidente dos portugueses, do que fala a cada um de nós, do que está próximo de cada um de nós.
Quis matar a força irracional do populismo sendo um populista do Bem, da democracia, da liberdade.
Era uma ideia genial.
É uma ideia genial.
Se não o conseguiu é porque ninguém o poderá conseguir desta maneira – temos que ir por outro lado.
4.
Caro Marcelo,
Já tenho saudades suas.
E o país terá saudades suas, independentemente do sucesso ou insucesso da nova Presidência.
Não é possível não ter saudades de quem é único e irrepetível.
Até dos seus erros.
Adoro a sua loucura, o seu lado provocador, o seu humor que aposto o faz sorrir quando fica sozinho nas suas quatro paredes.
A realidade é sempre mais poderosa do que a ficção de qualquer cenário – sabemo-lo bem.
5.
Agradeço-lhe por tudo.
Não apenas pelos dez anos, mas sobretudo pela sua vida.
Por ter passado por aqui e não ter traído a parábola dos talentos.
Pela coragem do que disse, na cara, aos populistas mais perigosos e poderosos – inesquecível a primeira vez que se sentou na Casa Branca com Trump.
Inesquecível também o seu à vontade em Westminster quando fez sorrir a Rainha Isabel II.
Tive orgulho em tê-lo como Presidente de um país que amo.
Obrigado.
E até já.
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