Souto de Moura faz tudo: até crematórios

Os crematórios multiplicam-se nas cidades. E há-os para todos os gostos. Ricos e pobres. Feitos por atacado ou pensados por grandes arquitetos. Eduardo Souto de Moura é mesmo o rei dos crematórios.

Souto de Moura faz tudo: até crematórios

Os crematórios multiplicam-se nas cidades. E há-os para todos os gostos. Ricos e pobres. Feitos por atacado ou pensados por grandes arquitetos. Eduardo Souto de Moura é mesmo o rei dos crematórios.

1.

Não há trabalhos menores.

Há profissões mal pagas e amadas.

E tarefas indignas que só não o são quando temos a arrogância boa de acharmos que valemos a pena, que aquilo que fazemos não nos quebra e não deforma o que sonhamos.

Isto para te falar de Arquitetura.

Convenci-me, na minha profunda ignorância, que há obras e obras.

Que pensar um edifício não é o mesmo que desenhar uma pequena gaiola de pássaros.

Ou que imaginar uma piscina não é o mesmo que projetar um tanque.

2.

Não é verdade.

Todas as obras podem ser colocadas no papel para serem dignas, espetaculares ou marcantes – até podem ser as três coisas ao mesmo tempo.

Por exemplo: os crematórios.

Nunca me passou pela ideia de que poderiam ser projetados por grandes arquitetos – quem aceitaria assinar a autoria de um crematório?

Preconceito estúpido.

E um erro de análise.

A resposta é: vários arquitetos distintos, premiados e caros, já desenharam lugares perfeitos para os corpos poderem ir desta para melhor com o requinte que merecem.

3.

O campeão de crematórios é mesmo o grande Eduardo Souto de Moura.

Tem dois ou três na Bélgica e outros tantos em Portugal, como o Centro Funerário da Maia, nas cercanias do Cemitério do Xisto.

O “Nobel” da Arquitetura assinou a obra e usou betão e pedra numa estrutura com pátios interiores e luz natural numa geometria que tranquiliza e eleva.

A nós, os que choramos, e aos que nos desaparecem das vistas.

Um ambiente tranquilo com árvores, passarinhos e verde à volta.

4.

Há sítios onde a cremação é proibida, em todos os países islâmicos, por exemplo, os corpos não podem ser profanados.

Fica para outro postal.

Confesso-te que me faz confusão ser cremado.

O problema é que me faz também confusão ir para a terra.

O melhor é ir ficando por aqui enquanto me for permitido.

Mas como a estética é importante vou recolhendo informação acerca da última morada – e para começo de conversa, não me

parece mal ser visita de uma casa desenhada por Souto de Moura.

Uma visita curta e demasiado quente, mas não se pode ter tudo.

Sou menino para comprar a ideia.

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