1.
Não há trabalhos menores.
Há profissões mal pagas e amadas.
E tarefas indignas que só não o são quando temos a arrogância boa de acharmos que valemos a pena, que aquilo que fazemos não nos quebra e não deforma o que sonhamos.
Isto para te falar de Arquitetura.
Convenci-me, na minha profunda ignorância, que há obras e obras.
Que pensar um edifício não é o mesmo que desenhar uma pequena gaiola de pássaros.
Ou que imaginar uma piscina não é o mesmo que projetar um tanque.
2.
Não é verdade.
Todas as obras podem ser colocadas no papel para serem dignas, espetaculares ou marcantes – até podem ser as três coisas ao mesmo tempo.
Por exemplo: os crematórios.
Nunca me passou pela ideia de que poderiam ser projetados por grandes arquitetos – quem aceitaria assinar a autoria de um crematório?
Preconceito estúpido.
E um erro de análise.
A resposta é: vários arquitetos distintos, premiados e caros, já desenharam lugares perfeitos para os corpos poderem ir desta para melhor com o requinte que merecem.
3.
O campeão de crematórios é mesmo o grande Eduardo Souto de Moura.
Tem dois ou três na Bélgica e outros tantos em Portugal, como o Centro Funerário da Maia, nas cercanias do Cemitério do Xisto.
O “Nobel” da Arquitetura assinou a obra e usou betão e pedra numa estrutura com pátios interiores e luz natural numa geometria que tranquiliza e eleva.
A nós, os que choramos, e aos que nos desaparecem das vistas.
Um ambiente tranquilo com árvores, passarinhos e verde à volta.
4.
Há sítios onde a cremação é proibida, em todos os países islâmicos, por exemplo, os corpos não podem ser profanados.
Fica para outro postal.
Confesso-te que me faz confusão ser cremado.
O problema é que me faz também confusão ir para a terra.
O melhor é ir ficando por aqui enquanto me for permitido.
Mas como a estética é importante vou recolhendo informação acerca da última morada – e para começo de conversa, não me
parece mal ser visita de uma casa desenhada por Souto de Moura.
Uma visita curta e demasiado quente, mas não se pode ter tudo.
Sou menino para comprar a ideia.
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