Um aristocrata salvou o coração de Cunhal

Em 1990, o coração de Álvaro Cunhal esteve nas mãos de um burguês. Literalmente. Uma história deliciosa de uma operação que uniu dois homens numa amizade improvável.

Um aristocrata salvou o coração de Cunhal

Em 1990, o coração de Álvaro Cunhal esteve nas mãos de um burguês. Literalmente. Uma história deliciosa de uma operação que uniu dois homens numa amizade improvável.

1.

O Muro de Berlim tinha desabado, a União Soviética sofrido um desmembramento e o coração de Álvaro Cunhal não aguentou o impacto de uma Perestroika que lhe rebentou o sonho de um mundo sem amos.

Fora operado em Moscovo por causa de um aneurisma, mas em 1990 sofreu uma recaída e era necessário e urgente implantar um pacemaker.

O líder do PCP, uma das figuras maiores de toda a história do comunismo, procurou ajuda no Santa Marta, o mais especializado entre todos os hospitais públicos portugueses.

2.

A intervenção foi de urgência e o médico tinha de ser o melhor.

Acontece que o melhor era José Roquette, primo do ex-presidente do Sporting e membro de uma das famílias mais aristocráticas, conservadoras e influentes do país.

Porventura terá passado pela cabeça de Cunhal que, depois de levar com Gorbatchov, só lhe faltava ter um Roquette a abrir-lhe o peito e a tirar-lhe o coração para fora.

Lá se conheceram antes da anestesia e o comunista exigiu ao burguês que o tratasse como o mais humilde dos homens.

Não queria nenhum tratamento privilegiado, preferia ficar numa enfermaria comum.

3.

José Roquette ouviu e fez o contrário.

Adormeceu-o, operou-o e colocou-o num quarto sozinho e isolado de todas as confusões.

Quando Álvaro Cunhal conseguiu protestar, o médico explicou-lhe que não podia ser pois, se o fizesse, estaria a ser irresponsável.

Porquê, quis saber Cunhal.

Porque iria pôr em causa todo o serviço, os outros doentes ficariam inquietos e as equipas médicas não poderiam trabalhar com tranquilidade.

Calou-se.

E concordou.

4.

A operação foi em 1990.

Cunhal deixaria a liderança do PCP dois anos depois, mas viveria mais 15.

E ao longo dessas quase duas décadas manteve uma relação de alguma proximidade com Roquette.

Falavam de tudo.

Do coração, de história, de cultura e do país.

Na sua autobiografia, o cirurgião escreveu da sua admiração pela impressionante figura do seu paciente.

Disciplinado.

Com uma tolerância enorme à dor – jamais se queixou mesmo quando o sofrimento era evidente.

E de uma educação a toda a prova.

Enfim, uma história que parece ser agora menos possível…

…neste tempo de tanta estupidez, é quase absurdo pensar que um aristocrata possa ter nas mãos o coração de um comunista.

Não um comunista, mas o comunista.

Eis a história de uma amizade improvável entre dois homens que se souberam abraçar estando em margens opostas do rio.

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