1.
O Muro de Berlim tinha desabado, a União Soviética sofrido um desmembramento e o coração de Álvaro Cunhal não aguentou o impacto de uma Perestroika que lhe rebentou o sonho de um mundo sem amos.
Fora operado em Moscovo por causa de um aneurisma, mas em 1990 sofreu uma recaída e era necessário e urgente implantar um pacemaker.
O líder do PCP, uma das figuras maiores de toda a história do comunismo, procurou ajuda no Santa Marta, o mais especializado entre todos os hospitais públicos portugueses.
2.
A intervenção foi de urgência e o médico tinha de ser o melhor.
Acontece que o melhor era José Roquette, primo do ex-presidente do Sporting e membro de uma das famílias mais aristocráticas, conservadoras e influentes do país.
Porventura terá passado pela cabeça de Cunhal que, depois de levar com Gorbatchov, só lhe faltava ter um Roquette a abrir-lhe o peito e a tirar-lhe o coração para fora.
Lá se conheceram antes da anestesia e o comunista exigiu ao burguês que o tratasse como o mais humilde dos homens.
Não queria nenhum tratamento privilegiado, preferia ficar numa enfermaria comum.
3.
José Roquette ouviu e fez o contrário.
Adormeceu-o, operou-o e colocou-o num quarto sozinho e isolado de todas as confusões.
Quando Álvaro Cunhal conseguiu protestar, o médico explicou-lhe que não podia ser pois, se o fizesse, estaria a ser irresponsável.
Porquê, quis saber Cunhal.
Porque iria pôr em causa todo o serviço, os outros doentes ficariam inquietos e as equipas médicas não poderiam trabalhar com tranquilidade.
Calou-se.
E concordou.
4.
A operação foi em 1990.
Cunhal deixaria a liderança do PCP dois anos depois, mas viveria mais 15.
E ao longo dessas quase duas décadas manteve uma relação de alguma proximidade com Roquette.
Falavam de tudo.
Do coração, de história, de cultura e do país.
Na sua autobiografia, o cirurgião escreveu da sua admiração pela impressionante figura do seu paciente.
Disciplinado.
Com uma tolerância enorme à dor – jamais se queixou mesmo quando o sofrimento era evidente.
E de uma educação a toda a prova.
Enfim, uma história que parece ser agora menos possível…
…neste tempo de tanta estupidez, é quase absurdo pensar que um aristocrata possa ter nas mãos o coração de um comunista.
Não um comunista, mas o comunista.
Eis a história de uma amizade improvável entre dois homens que se souberam abraçar estando em margens opostas do rio.
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