1.
Nesta nossa conversa diária não temos tabus.
Sei que nem sempre estás de acordo.
Calculo que te irrite algumas vezes.
Que te comova outras.
Que te surpreenda ou te enfastie.
É normal, mas tento fazer o melhor todos os dias.
E o que te afirmei na primeira frase é…
…verdadeiramente
…o que me importa.
Que entre nós não existam temas que não podem ser tocados.
2.
Quero falar-te do nosso cheiro.
Também ele nos identifica.
Não, não é isso.
Não me refiro ao cheiro dos que não tomam banho ou das pessoas que, sem culpa alguma, possam ter problemas hormonais.
Falo-te do cheiro natural do nosso corpo que muda em função da idade que temos.
3.
O meu cheiro com cinquenta e tal anos não é o mesmo que tinha aos vinte.
Ou aos cinco.
Ou em bebé.
Quando envelhecemos há uma molécula com mau feitio que muda tudo aqui dentro.
Ficamos com a pele mais oleosa e o odor também envelhece…
…não como um bom whisky ou aguardente, é um cheiro de desuso, de casa solitária ou mesmo abandonada.
Temos também mais maleitas, menopausas e andropausas, um sem número de bicos de papagaio.
Mas olha, se estás a envelhecer como eu…
…ou se és mais velho ou velha do que eu, não te chateeis com o assunto.
Cheirarás sempre melhor do que quando eras adolescente e empestavas os lugares com um bafo insuportável e agoniante a suor.
4.
Cada idade o seu cheiro.
Cada estado de espírito também.
O medo tem cheiro.
O amor também.
A paixão, ui.
O nascimento, o mais possível.
Determinadas doenças detetam-se assim.
A proximidade da morte tem cheiro.
Por isso, os animais detetam-na antes de ela nos entrar definitivamente pela porta.
Talvez vejam o que não vemos, quem sabe?
Mas certamente que cheiram o que não está ao alcance dos nossos narizes.
Até amanhã.
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