1.
Ver um filho a dormir não é possível de explicar com palavras justas.
É Amor, ok.
Óbvio, mas pouco exato.
É mais do que isso, uma soma de coisas.
O cheiro, claro.
Como as crias de animais selvagens, um reconhecimento ancestral, a força da biologia.
Também a memória, a recordação de quando era mais pequeno, de quando nos veio das entranhas, de quando chorou, dos cocós e das fraldas, tudo isso.
Também o medo, o pânico que alguma coisa lhe aconteça, de um Apocalipse que nos amedronta em cada saída, em cada viagem, em cada telefonema – um pai e uma mãe tentam expurgar para longe maus pensamentos e tristes augúrios, mas ter um filho oferece-nos o absoluto, mas também o fim da tranquilidade.
Também a família, os dias apaixonados com a mãe ou o pai, os projetos a dois, as ecografias. Ou então o que não correu bem, a tristeza de um divórcio, a desilusão.
Também o orgulho.
A esperança.
2.
Ver um filho a dormir é tanta coisa.
Dizer que é Amor, é de menos.
Sendo uma palavra justa é certamente inadequada.
Amamos quem escolhemos.
A pessoa que está ao nosso lado, quando temos sorte.
Amamos amigos, de uma outra forma.
Dizer que amamos os filhos é curto, sempre curto.
Se não há uma palavra para a perda de um filho, também não existe para a vida de um filho.
São abismos.
Do bem e do mal.
Do que nos preenche e do que nos mata.
3.
Ver um filho a dormir é a mais forte responsabilidade que temos enquanto pais e mães.
Proteger.
Vigiar os pesadelos.
Amparar os pequenos tremores.
Pensar em nós também.
Antecipar o dia em que seremos apenas espírito.
E silêncio.
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