Há uma estirpe muito particular de visionários na “Terra Média”: aqueles que nunca aceitariam esse título. Os que recusam ser guias, mas que, sem o saberem, abrem caminhos. Os que não sonham o amanhã porque estão demasiado ocupados a construir o presente. Não são profetas — são artesãos da mudança.
No episódio desta semana da rubrica Visionários, viajamos pelas ruas sinuosas, pelas memórias e pelas geografias que moldaram um dos nomes mais gravados nas colunas culturais do nosso continente emocional: John Lennon, assassinado há exatamente 45 anos, mas indelével nas canções, nas praças, nos murais e nas lutas que transformou em arte.
A 8 de dezembro de 1980, John Lennon era assassinado à porta do The Dakota, prédio emblemático de Nova Iorque, às margens do Central Park, por Mark Chapman. A sua partida precoce, aos 40 anos, parou o mundo: desaparecia o primeiro Beatle, um músico que fez história tanto na sua área de eleição, como pela personalidade acutilante.
Tendo como pretexto o documentário “One to One: John & Yoko”, os peregrinos da Terra Média vão à descoberta de um visionário que vive ainda nas ruas sinuosas, nas praças e nos bazares, e que inscreve na pedra calcada aquele velho desejo: “Imagine all the people living life in peace…”
Foi em Liverpool que nasceu e cresceu John Winston Lennon, no bairro de Woolton, cidade marcada por uma vibrante vida portuária que trazia discos americanos às margens do Rio Mersey. Foi na casa de 251 Menlove Avenue, onde viveu com a sua Tia Mimi, que descobriu Elvis Presley, o skiffle e o rock ‘n’ roll tão presentes nos anos iniciais da sua carreira como músico.
Por falar em Elvis, se escavarmos fundo no ADN dos Beatles vamos encontrar Elvis, talvez o 1.º músico a inscrever-se na cultura juvenil à escala planetária, cruzando música, cinema, televisão e lifestyle. Foi uma das primeiras e mais importantes referências dos Beatles, em particular de John Lennon, que vem das mesmas origens de classe trabalhadora, a mesma rebeldia e inconformismo. O encontro os Beatles e Elvis deu-se mais tarde, em 1965:
Em 1956, Lennon forma os Quarrymen, e, em 1957, conhece Stu Sutcliffe no Liverpool College of Art, pessoa importantíssima na educação artística de Lennon e grande amigo até à morte precoce de Stu. Foi também em Liverpool que conheceu Paul McCartney e George Harrison e não demoraria muito para que mudassem o rumo da história.
Foi Hamburgo, outra cidade portuária, que transformou a banda desengonçada de adolescentes numa máquina oleada: ao longo de dois anos, os Beatles desenvolveram lá a sua forja, tocando turnos de 6 horas por noite em residências alongadas. O Smithsonian relembra esta temporada como uma altura fulcral que catapultou o grupo para o estrelato: smithsonianmag.com/smart-news/trove-beatles-memorabilia-sale-180977408
Depois, já com a carreira estabelecido, começava uma nova aventura na vida do músico. Perseguido pelas hordas de fãs e pelos media que cobriam incessantemente cada passo dos “fab four”, John Lennon e os Beatles desenvolveram uma estratégia mediática sem paralelo na época. São os Beatles os responsáveis pela era contemporânea das superestrelas. Filmes, aparições em programas de televisão, videoclipes — o teledisco de “Penny Lane” é considerado um dos primeiros da história —, merchandising…
Depois, claro, o estrelato estrondoso dos Beatles viriam a imprimir na memória coletiva a imagem de um Lennon cáustico e com um sentido de humor curioso. Vítima habituais dos tablóides, Lennon que terá saído do Reino Unido por esse motivo, nunca deixava os jornalistas sem respostas. Um dos exemplos mais dramáticos disso é o momento em que diz que “os Beatles são mais populares que Jesus”.
Assim começa a era de Lennon como “político por acidente”. Em 1966, Os Beatles tiveram um confronto famoso com o regime de Ferdinand Marcos nas Filipinas, quando recusaram um convite para reunir com a Primeira-Dama Imelda Marcos. O resultado foi o tratamento hostil e uma fuga caótica do país, com a banda sendo ameaçada e não recebendo o pagamento pelos concertos. Lennon foi o que mais verbalizou a posição dos Beatles.
Também é o responsável pelas primeiras declarações políticas na música dos Beatles, que refletem o espírito do tempo e abordam temas polémicos, como a posição da Igreja Católica sobre o aborto e a contraceção. Canções como “Revolution” e “Lady Madonna” espelham precisamente isso.
O fim dos Beatles acontece em 1970 e, um ano mais tarde, Lennon muda-se com Yoko Ono para Nova Iorque, cidade que era sinónimo de anonimato, liberdade e diversidade. Foi também o palco do seu ativismo. Lennon envolveu-se com líderes dos movimentos pelos direitos civis e tornou-se alvo da CIA, do FBI e do governo de Richard Nixon. Ainda assim, considerava Nova Iorque “a cidade mais quente do mundo”, como refere numa entrevista a Chris Charlesworth em 1973.
A canção “Working Class Hero” torna-se numa espécie de hino socialista do álbum “John Lennon/Plastic Ono Band”, editado em 1970. Também nessa década, Lennon e Yoko foram protagonistas de uma célebre campanha contra a guerra do Vietname, os “Bed-in for Peace”.

Ao longo dos 70’s, assumiu a defesa dos direitos civis, a luta contra a opressão, o apoio a movimentos guerrilheiros e ao próprio Mao. Segundo o artigo da Jacobin de 1981, Lennon “era um radical que acreditava no potencial subversivo do Rock”.
Depois dos Beatles, Lennon patrocinou, produziu e realizou filmes de vanguarda, como é o caso de “Rape” (1969) e “Imagine” (1972).
O assassinato de John Lennon, por Mark David Chapman a 8 de dezembro de 1980, foi motivado por uma mistura de inveja, desejo de fama e distúrbios psicológicos, com Chapman sentindo hipocrisia na mensagem de Lennon. Depois de ter recebido um autógrafo do próprio Lennon horas antes, disparou contra ele em frente ao Edifício Dakota, em Nova York.
Lennon foi morto em Nova Iorque, a cidade que adotara como casa.
John Lennon não vive apenas nos discos. Vive nas ruas, nos murais, nas lutas, nas contradições e nos sonhos que deixou como herança. E é por isso que, 45 anos depois, continua a ser — talvez apesar dele próprio — dos nossos Visionários.