Nos últimos meses, uma tendência curiosa começou a circular entre jovens no Ocidente: a ideia de estarem a viver “uma fase muito chinesa”. A expressão aparece em memes, vídeos e músicas virais, associada a gestos, hábitos e símbolos ligados à China — do consumo de tecnologia e plataformas digitais à comida, à estética urbana ou até à aprendizagem apressada de mandarim. À primeira vista, parece apenas mais uma moda irónica de internet, como tantas outras. Mas, observada com mais atenção, esta tendência diz muito sobre o momento político, económico e cultural do Ocidente.

Como analisou a WIRED em janeiro, em Why Everyone Is Suddenly in a ‘Very Chinese Time’ in Their Lives, esta “chinesidade” não surge tanto como conhecimento real do país, mas como projeção simbólica. Num contexto de desgaste do sonho americano, crises políticas prolongadas, desigualdade crescente e declínio visível das infraestruturas, a China passa a funcionar como um imaginário alternativo: eficiência, modernidade, futuro, capacidade de execução. Não importa se essa imagem corresponde ou não à realidade concreta — o que conta é o contraste com um Ocidente que parece preso à estagnação.

🔗  Porque é que toda a gente está, de repente, numa fase muito chinesa (Wired)

A própria circulação do meme ajuda a perceber essa lógica. A frase “you met me at a very Chinese time in my life”, catalogada pelo Know Your Meme, tornou-se um molde flexível onde cabe tudo: ironia, admiração, cinismo e desencanto.

🔗 “Know Your Meme”: a explicação da fase muito chinesa

Tudo isto acontece num momento em que o próprio centro cultural ocidental dá sinais de retração. Menos tours musicais passam pelos Estados Unidos, com artistas como Brian May a afirmarem que “neste momento, é perigoso fazer tour nos EUA”. A ideia de um país instável, fragmentado e inseguro deixa de ser retórica externa e começa a ser dita por dentro.

🔗 Brian May, dos Queen, diz que os EUA estão demasiado perigosos para uma tournée (The Guardian)

Em paralelo, algo muda também na comunicação política. Durante anos, tornou-se quase consensual que a esquerda progressista falhara na adaptação aos novos meios digitais, deixando o terreno livre ao trumpismo e à extrema-direita online. No entanto, após a derrota de Kamala Harris, o prolongamento do trumpismo e o impacto do conflito em Gaza, surgem sinais de aprendizagem acelerada. Como escreve a Politico em When they go low, we go viral, os progressistas começam finalmente a dominar a lógica dos algoritmos, da viralidade e da linguagem emocional das redes.

🔗 When they go low, we go viral (Politico)

Análises como a de M. Vitorino ou o filme de campanha de Zohran Mamdani mostram uma viragem clara: menos institucionalismo, mais cultura digital, mais “issues”, menos discurso abstrato.

Este fenómeno não é exclusivo dos EUA. Em Portugal, o caso Volksvargas ilustra bem o poder paradoxal dos novos influenciadores políticos. Independentemente do processo instaurado pelo primeiro-ministro, como analisa Carla Borges Ferreira no Jornal ECO, o ataque institucional apenas amplificou o alcance do criador. A crónica de Ricardo Araújo Pereira no Expresso reforça a mesma ideia: quando o sistema reage mal, legitima aquilo que tenta conter.

🔗 Caso ‘Volksvargas’: quando “o remédio faz pior do que a doença”

Tudo isto levanta uma questão mais funda: estará a cultura a entrar numa fase de estagnação, acelerada pela IA? Segundo The Conversation, em AI-induced cultural stagnation is no longer speculation, a produção cultural começa a reciclar-se a um ritmo cada vez mais rápido, mas também mais raso. A “fase muito chinesa” encaixa bem aqui: um pastiche rápido, simbólico, pronto a ser abandonado assim que surgir outra tendência.

🔗 A estagnação cultural impulsionada pela IA já está a acontecer (The Conversation)

No meio deste ruído, surgem ainda recomendações culturais que tentam escapar à lógica do scroll infinito.