Entre 1976 e 1986, Portugal aprende a ser uma democracia. É um país que sai de uma ditadura, atravessa o Processo Revolucionário em Curso (PREC), enfrenta instabilidade política, crises económicas e profundas fragilidades sociais. É também um país onde muitas realidades, como a violência doméstica ou o abuso de crianças, permanecem fora do discurso público. É nesse tempo de aprendizagem coletiva que se desenha um papel sem nome, sem estatuto formal e longe dos holofotes: o de Manuela Eanes, mulher do primeiro Presidente da República eleito por sufrágio universal em democracia: António Ramalho Eanes.
“Manuela Eanes e a graça de nunca desistir” é um documentário sonoro que cruza a história política e social de Portugal com a vida concreta de quem habitou o Palácio de Belém como casa, com filhos, rotinas e inquietações. Recusando sempre o título de Primeira-Dama, Manuela Eanes constrói um modo de estar assente na escuta, na ética e na presença. Das viagens de Estado à vida privada, do silêncio social em torno das crianças à criação do Instituto de Apoio à Criança, o documentário revela como, num país ainda sem rede, o cuidado se transformou numa resposta moral a um vazio institucional.
Este é um trabalho da jornalista Rita Colaço com depoimentos de Manuela Eanes – hoje com 87 anos – e sons do arquivo da Rádio e Televisão de Portugal, que propõe um retrato íntimo e histórico de uma década decisiva da democracia portuguesa.