Imagem de O bigode de António Sala está no código genético de muitos miúdos que nunca dele ouviram falar

O bigode de António Sala está no código genético de muitos miúdos que nunca dele ouviram falar

António Sala comemora 60 anos de uma carreira que começou quando ainda nem sequer tinha bigode. Continua jovem e a sua voz está igual ao que sempre foi. Como se fosse imortal.

Imagem de O bigode de António Sala está no código genético de muitos miúdos que nunca dele ouviram falar

O bigode de António Sala está no código genético de muitos miúdos que nunca dele ouviram falar

António Sala comemora 60 anos de uma carreira que começou quando ainda nem sequer tinha bigode. Continua jovem e a sua voz está igual ao que sempre foi. Como se fosse imortal.

1.

Está a comemorar 60 anos de carreira.

Mas fá-lo como se fosse novo, como se tivesse todo o tempo à frente, como se tivesse tomado um comprimido que impede o envelhecimento por fora e por dentro, como se estivesse mais fresco do que o estagiário que agora começa, como se a vida não lhe tivesse passado, mais as suas mazelas e vitórias.

Este postal é especial.

Por ser sobre um homem da rádio.

De uma rádio que era dominante e enchia estádios.

De uma rádio feita de proximidade, improviso e até ingenuidade.

2.

Sessenta anos passaram pela primeira vez que um microfone se abriu para a sua voz.

Não tinha bigode nem ainda fazia a barba todos os dias. Só uma vez por outra cortava a penugem por não abdicar de estar impecável.

Celebramos um homem de que não nos esquecemos.

Deixou de estar em antena todos os dias, mas é como se continuasse todos os dias a despertar-nos – mesmo aos que já não o conhecem, mesmo alguns desses são bem capazes de ter na sua informação genética fragmentos do que a sua voz fez aos pais e avós, estilhaços das canções que compôs, de uma popularidade sem populismo, de uma fronteira entre a rádio do passado e o futuro, entre o nacional-cançonetismo e a modernidade.

3.

António Sala era o homem em quem o passado ainda confiava.

Mas era também o homem que o futuro não desdenhava por ter ideias ousadas e uma vontade enorme de não desaproveitar a vida.

Manteve o bigode na moda.
Já ninguém usava, mas nele ficava bem.

Contou anedotas que os humoristas rebentaram, mas na sua boca faziam-nos rir.

Vendeu pulseiras a meio mundo por ser o português em que em todos confiávamos, se ele nos dizia que as pulseiras faziam bem as pulseiras faziam bem.
Mas se não resultava não o culpabilizávamos a ele, como poderíamos ficar chateados com o António Sala?

Com um humor nem a mais nem a menos.

Com um cuidado pelas pessoas próprio de um médico de alma.

Como ficar chateados com alguém lá de casa, alguém que entrava todos os dias mais a sua voz e o seu bigode sempre na moda?

Muitos parabéns, António.
Que os próximos 60 anos sejam ainda melhores do que estes.

Texto e programa de Luís Osório


Ouça o “Postal do Dia” na Antena 1, de segunda a sexta-feira, pelas 18h50. Disponível posteriormente em Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts e RTP Play.