No final do jogo de ontem à noite e enquanto fazíamos a reportagem final, depois do relato do Casa Pia/Benfica, numa já despida tribuna de imprensa, olhei para baixo e vi, na pista de tartan do estádio municipal de Rio Maior, um solitário Rui Costa, a andar de um lado para o outro ao longo de muitos e penosos minutos.
O presidente do Benfica, sozinho, sem ninguém por perto, a fumar cigarro atrás de cigarro, aqui e ali a olhar para o chão ou para o infinito procurava, com os seus botões, refletir, certamente, sobre o que vai fazer a seguir.
Praticamente ao mesmo tempo ouvi José Mourinho a atirar, literalmente, a toalha ao chão.
Disse o treinador dos encarnados, de forma clara e inequívoca, que “perdemos as possibilidades que ainda tínhamos de sermos campeões”.
Acrescentou que “o objetivo, agora, é lutar pelo segundo lugar, mas não dependemos só de nós”, pela simples razão de que mesmo que consigam ganhar os jogos todos, ainda precisam de uma escorregadela do Sporting para cumprir esse objetivo.
E não será uma escorregadela qualquer, porque os encarnados precisam de ganhar o jogo com os leões, em Alvalade, na jornada 30, e precisam ainda que o Sporting perca mais um jogo. Não é impossível, mas quase…
Por fim atirou-se aos jogadores: “tinha vontade de não os por a jogar mais. Mas são ativos do clube.” Para concluir que a equipa não teve energia. “Há jogadores que não comem futebol”, como quem diz que há quem não dê tudo o que pode e deve dar.
Mesmo assim, no final da conversa, não escondeu que “gostava de continuar a treinar o Benfica.”
Ao ouvir estas declarações e ao mesmo tempo a ver Rui Costa, tudo em direto, sem intermediários e sem filtros, percebi muito bem a angústia do Presidente do
Benfica que à saída do estádio ouviu das boas por parte de alguns – poucos – adeptos dos encarnados.
A questão é exatamente esta: o que vai o Presidente Rui Costa fazer a seguir?
Vai manter Mourinho e dá-lhe os meios – outros jogadores – para fazer mais uma revolução no plantel, porque o próprio já disse que só não encosta alguns deles porque são ativos do clube?
Ou, pelo contrário, no final da temporada, tal como o contrato o permite, decide por fim à ligação com o setubalense?
Vai Rui Costa, à semelhança do que fez nas últimas duas temporadas com Roger Schmidt, primeiro, ou Bruno Lage, depois, permitir que Mourinho comece a época para depois quando as coisas começarem a correr menos bem, se decidir pela sua saída?
Já agora, como será a relação do treinador com o plantel, depois de terem conhecimento das suas declarações, nas quais são dos principais visados? Vão aceitar bem ou vão, também eles, encolher os ombros e esperar pelo final da temporada para verem o que vai acontecer?
E José Mourinho não tem qualquer responsabilidade em tudo isto? Talvez tenha mais do que aquilo que assume publicamente. A autocritica é sempre um bom caminho para começarmos a resolver alguns problemas. É assim na vida. É assim no futebol.
Tantas perguntas sem respostas óbvias e claras.
Tantas perguntas às quais Rui Costa precisa de responder ou, pelo menos, assuntos sobre os quais necessita de refletir. Em primeiro lugar com os seus botões, depois com os principais conselheiros e, ainda, com os seus pares na SAD do Benfica.
As decisões não podem ser tomadas a quente, longe disso, mas há decisões quem têm de ser tomadas e, neste caso, acho que quanto mais rapidamente melhor.
Talvez o limite seja na semana a seguir ao jogo com o Sporting, marcado para domingo, 19 de abril.
É que apesar de tudo, o tempo urge e há uma temporada, a próxima, para preparar, seja com este ou com outro treinador. Seja com estes ou com outros jogadores.