1.
Se a minha avó Joaquina tivesse conhecido a avó Joaquina de Marcelo Rebelo de Sousa, teria sido improvável que trocassem três palavras e ter-lhes-ia sido impossível a amizade.
A avó paterna de Marcelo era minhota de Gandarela, freguesia de Celorico de Basto, mas zelava por uma família aristocrata, dona de terras e devota à velha Igreja conservadora e senhorial.
A minha avó materna era ribatejana das Mouriscas, freguesia de Abrantes, e zelava por dois filhos trabalhando de sol a sol numa máquina de inventar soutiens, não tinha terras e a sua relação com Deus era forte, mas profana.
2.
Estas duas mulheres tiveram uma coisa em comum: ofereceram aos netos uma hipótese de felicidade, a prova de que o afeto sem condições era possível, a ideia bonita de que se pode tornar à infância durante a vida, até quando nos aproximamos do fim.
As nossas Joaquinas.
A minha e a de Marcelo.
Mas também a tua, mesmo que não se chame Joaquina.
A dele, para sempre Presidente, que preparava anho e fatias douradas na Páscoa, sarrabulho e farinheira para os dias frios, cabidela quando havia matanças e arroz doce só para os netos.
Aposto que Marcelo não era guloso, mas disfarçava para que a sua Joaquina não desconfiasse um segundo de que ele a amava.
3.
Joaquina que casou com um Joaquim.
Verdade: António Joaquim Rebelo de Sousa.
Joaquina que nos anos em que o filho Baltazar trabalhou em Moçambique, ficou a tomar conta do neto Marcelo, e do seu irmão António, na casa de Lisboa – deve ter sido um tormento não poder cirandar na terra, mas para eles, para Marcelo, foi um paraíso.
4.
Joaquina morreu–lhe em 1975.
Há mais de 50 anos.
Mas Marcelo continua a falar com ela.
Quando doou os seus livros a Celorico foi por ela.
Quando lá regressa é por ela que o faz.
Pela memória dos seus dias felizes.
Pela magia de se olhar ao espelho e ver refletida a criança que foi.
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