1.
É para ti que escrevo.
Que hoje falo.
Para ti que és mãe.
Que sentiste o teu bebé dentro do teu corpo.
Que sentiste o primeiro movimento, o primeiro murmúrio ainda em silêncio, o primeiro pontapé.
2.
Lembras-te dos planos?
Das conversas, das roupinhas nas montras das lojas, da escolha do berço, das lágrimas que choraste quando ninguém estava a ver?
Do medo que sentias por alguma coisa poder correr mal?
Do receio que não estivesses à altura?
Das consultas, dos toques, das ecografias, de tirar sangue, da fome que sentiste, dos desejos de coisas malucas… um bife a meio da noite, um Molotov quando não há Molotov?
3.
Da trouxinha que levaste para a maternidade?
Vezes sem conta abriste e fechaste a mala, sei que o fizeste.
E as contrações?
Os homens não imaginam o que é.
Cada vez mais perto umas das outras, uma dor que não se explica.
Como o rebentar das águas, o não saberes muito bem o que aconteceu, se são águas ou se te descontrolaste.
4.
Recordas-te das pessoas vestidas de branco a pedirem-te para fazer força, para respirares compassadamente?
Da placenta a cair no balde, da cabecinha do bebé a aparecer, do primeiro choro, de o porem no teu colo, de lhe contares os dedos das mãos e dos pés, de sentires uma enorme euforia, um alívio, às vezes uma tristeza que não percebes de onde vem?
Lembras-te quando todos se vão embora e pudeste ficar sozinha com o teu bebé?
Estás a sorrir, aposto.
Recordas o que lhe disseste?
E a primeira vez que o puseste a arrotar, a primeira vez que bolsou, a primeira papa, o primeiro susto, o primeiro passo, o primeiro Natal, o primeiro aniversário, a primeira vez que ficaste sem ele, a primeira letra que aprendeu, o primeiro beijo…
É para ti que escrevo, querida mãe.
Para ti que viveste tudo isto e tudo o resto que não sei, que não posso saber, apenas imaginar.
E invejar.
E agradecer.
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