1.
Não teria mais do que doze anos.
E não tratei melhor o Francisco do que os outros que o gozavam no recreio.
O Chico namorava com uma menina que achávamos muito, muito, muito feia.
E nós gostávamos do Chico, sem dúvida que merecia melhor.
Ou então não é verdade… ou então éramos horríveis e previsivelmente humanos naquilo que temos de pior. Humilhar, fazer sofrer, gozar o prato faz infelizmente parte do nosso menu.
Ela era muito feia.
A cara bexigosa, os cabelos de bruxa, ainda por cima antipática.
2.
Até hoje não me esqueço do desespero do Chico quando nos gritou.
Nunca mais me esqueci das suas palavras, nunca mais gozei com outra pessoa por qualquer opção de que fosse capaz do ponto de vista estético.
“Como podem dizer isso se não a veem com os meus olhos?”
Foi esta a pergunta do Chico.
3.
Há uns meses, alguém que encontrei na rua, um colega distante de liceu quis saber a certa altura se continuava a falar com a Maria Leal.
Perguntei-lhe quem era a Maria Leal, se era a que eu pensava que era.
“Sim, a cantora pimba. A Elisabete, não te lembras da Elisabete do Pedro Nunes? Era nossa amiga.”
4.
Não me lembro da Elisabete e pode ser um equívoco, mas não interessa. Não éramos amigos, lembrar-me-ia, mas se o fossemos seria engraçado poder dizê-lo.
Afinal, não é uma pessoa qualquer.
É… muito provavelmente… a pior cantora que alguma vez tocou num microfone.
Mas Maria Leal tem dezenas de espetáculos por ano.
Não lhe falta trabalho, não lhe faltam convites para programas de televisão, as pessoas compram o que faz, aplaudem-na, enchem os lugares onde é anunciada.
Pergunto-te: é por gostarem, é por a ouvirem com os seus ouvidos ou apenas pelo gozo, pelo grotesco, por ser tão mau que é bom, por assim poderem passar um bom bocado?
5.
Este é um tema sério.
Estamos próximos de eleições e há uma ligação muito mais direta do que se possa imaginar.
O que é rasca vende mais por existirem mais pessoas rascas ou porque as pessoas já estão por tudo?
Há uns anos, se me perguntassem, responderia sem qualquer hesitação.
Se alguém que só ouve Maria Leal ouvisse… sei lá… a Carmina Burana, interpretada pela Orquestra Sinfónica de Berlim, não hesitaria em escolher o que era melhor… mesmo que nunca tivesse ouvido uma orquestra ao vivo ou música clássica.
Da mesma maneira que não hesitaria um segundo em preferir Camané ou Carminho se eles cantassem só para ele ou para ela.
6.
Será que sim?
Ou será que prefeririam o “Gostas pouco gostas” da Maria Leal?
Se calhar estou a magoar-te, adoras Maria Leal e detestas o Sinatra.
Mas se te estou a magoar, se não te estou a respeitar, se não estou a respeitar a democracia, deixa-me confessar-te que desta vez não me importo nada.
Sabes, esse foi um dos problemas.
Os democratas que acham que a democracia deve tolerar tudo.
Até a morte da estética.
Até a morte dos livros.
Até o que faz pensar se for essa a vontade da maioria.
Até a voz da Maria Leal.
Se a maioria dos portugueses gosta de Maria Leal, tenho de respeitar e arrumar a minha tralha…
…e é se quero.
Não quero.
Quero de volta o meu mundo.
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