A lendária coragem de Luís Avelãs

É uma das pessoas mais marcantes da minha vida. A sua coragem era lendária, o seu gosto para a provocação uma delícia e a sua carreira no jornalismo fala por si. Ninguém é como Luís Avelãs.

A lendária coragem de Luís Avelãs

É uma das pessoas mais marcantes da minha vida. A sua coragem era lendária, o seu gosto para a provocação uma delícia e a sua carreira no jornalismo fala por si. Ninguém é como Luís Avelãs.

1.

Luís Avelãs é uma das pessoas mais marcantes da minha vida.

Jornalista desportivo, há trinta anos no Record, e um enorme comunicador – é mítica a sua dupla com Carlos Barroca no comentário aos jogos da NBA…

Preparado, provocador, intuitivo, rápido na análise, com um sentido de humor à prova de bala e uma coragem lendária.

2.

Isto da coragem lendária tem que se lhe diga.

Sei do que falo.

Na adolescência jogámos basquetebol e fomos campeões nacionais de juvenis.

Nessa equipa do Atlético, o Avelãs era tão importante dentro como fora de campo. Dentro, era um agitador. Tecnicamente evoluído e ainda mais evoluído na capacidade de desequilibrar os adversários com a sua língua poderosamente afiada.

O adversário que lhe tocava defender precisava de ter arcaboiço para aguentar as bocas desestabilizadoras do Luís.

3.

Nos estágios, com o Pedro Caeiro, era o meu modelo.

A pessoa que eu, tímido e contido, gostava de ser.

Era o rei do póquer.

Liderava, instigava, fazia apostas, era um íman.

Jogámos juntos nesse ano e depois foi para uma outra equipa, já não me recordo qual.

Mas com o embalo esquecia-me da coragem lendária.

Uma vez, ainda não o conhecia, jogava ele no Benfica ou no Estrelas da Avenida, saiu sob escolta policial e o jogo no Pavilhão da Tapadinha ia sendo interrompido.

Para quem nunca esteve com ele, o Luís é baixo. Mas isso nunca o embaraçou, enfrentava multidões e quando o apertavam saía sempre por cima.

Curiosamente, foi no ano a seguir, depois de ter armado aquela confusão, que se juntou a nós no Atlético.

4.

Falo-te hoje do Luís Avelãs.

Uma marcante figura do jornalismo.

Um jornalista à antiga, que vive para a profissão e com a profissão.

Aos 17 ou 18 anos já trabalhava.

Lembro-me de uma noite, não faço a mínima ideia do contexto, em que teve de enviar uma notícia para o jornal. Não havia emails e fê-lo pelo telefone, comigo ao lado.

Estávamos no final da adolescência e aquele telefonema impressionou-me muito.

O Luís Avelãs ditou a notícia pelo telefone sem uma hesitação, com uma confiança de sénior, com um domínio completo da profissão quando ainda pouco ou nada sabia da profissão.

Eu que desejava ser jornalista cheguei a casa nessa noite a pensar que jamais o poderia ser.

5.

Sei que tem um filho, pelo menos um filho sei que tem.

Numa das últimas vezes que o vi, jurou-me que o miúdo estava condenado a ser o primeiro jogador português na NBA…

…foi há uns anos e ainda não surgira o grande Neemias.

Essa profecia falhou, mas não a carreira bonita que Luís Avelãs construiu.

Essa não falhou, essa cumpriu-se e ainda só está a meio.

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